
“[…] Um meio de troca […] é uma mercadoria que, a fim de efetuar uma troca entre duas outras mercadorias, é primeiro recebida em troca por uma delas e, em seguida, dada em troca pela outra.” (p. 93) Ouro, prata, dinheiro.
“Por valor do dinheiro deve-se entender aqui a proporção na qual ele é trocado por outras mercadorias, ou a quantidade dele que é trocada por uma determinada quantidade de outras coisas.”
“Essa proporção é determinada pela quantidade total de dinheiro existente em um determinado país.” (p. 95)
“O que regula a quantidade de dinheiro?”
“O dinheiro é produzido sob dois conjuntos de circunstâncias: o Governo ou deixa livre o aumento ou a diminuição de sua quantidade; ou controla a quantidade, tornando-a maior ou menor conforme lhe aprouver.
“Quando o aumento ou a diminuição do dinheiro é deixado livre, o governo abre a casa da moeda ao público, transformando lingotes em dinheiro para tantos quantos o solicitarem. Os indivíduos que possuem lingotes desejarão convertê-los em dinheiro somente quando for de seu interesse fazê-lo; isto é, quando seus lingotes, convertidos em dinheiro, forem mais valiosos do que em sua forma original. Isso só pode acontecer quando o dinheiro é particularmente valioso e quando a mesma quantidade de metal, sob a forma de moeda, puder ser trocada por uma quantidade maior de outros artigos do que sob a forma de lingote. Como o valor do dinheiro depende de sua quantidade, ele tem um valor maior quando sua oferta é escassa. É então que os lingotes são transformados em moedas. Mas precisamente por causa dessa conversão, a antiga proporção é restabelecida. Portanto, se o valor do dinheiro subir acima do valor do metal de que é feito, o interesse dos indivíduos opera imediatamente, em um estado de liberdade, para restaurar o equilíbrio mediante o aumento da quantidade de dinheiro.” (pp. 99-101)
“Sempre que, portanto, a cunhagem de dinheiro for livre, sua quantidade será regulada pelo valor do metal, uma vez que é do interesse dos indivíduos aumentar ou diminuir a quantidade na proporção em que o valor do metal nas moedas for maior ou menor do que seu valor em lingotes.
“Mas, se a quantidade de dinheiro é determinada pelo valor do metal, ainda é necessário investigar o que determina o valor do metal… O ouro e a prata são, na realidade, mercadorias. São mercadorias para cuja obtenção é necessário empregar trabalho e capital. É o custo de produção, portanto, que determina o valor destas, assim como o de outras produções ordinárias.” (p. 101)
Na compensação entre dinheiro e valor do metal, assim como em sua descrição do custo de produção como o único fator determinante do valor, Mill comete o erro — como a escola de Ricardo em geral — de enunciar a lei abstrata sem a mudança ou a contínua superação dessa lei, por meio da qual somente ela vem a existir. Se é uma lei constante que, por exemplo, o custo de produção, em última instância — ou melhor, quando a demanda e a oferta estão em equilíbrio, o que ocorre esporádica e fortuitamente — determina o preço (valor), é igualmente uma lei constante que elas não estão em equilíbrio e que, portanto, valor e custo de produção não guardam nenhuma relação necessária. Com efeito, há sempre apenas um equilíbrio momentâneo entre demanda e oferta, devido à flutuação anterior da demanda e da oferta, devido à desproporção entre custo de produção e valor de troca, assim como essa flutuação e essa desproporção também se seguem novamente ao estado momentâneo de equilíbrio. Esse movimento real, do qual aquela lei é apenas um fator abstrato, fortuito e unilateral, é transformado pela economia política recente em algo acidental e não essencial. Por quê? Porque, nas fórmulas agudas e precisas às quais reduzem a economia política, a fórmula fundamental, se quisessem expressar abstratamente esse movimento, teria de ser: Na economia política, a lei é determinada por seu oposto, a ausência de lei. A verdadeira lei da economia política é o acaso, de cujo movimento nós, os homens de ciência, isolamos arbitrariamente certos fatores sob a forma de leis.
Mill expressa muito bem a essência da questão sob a forma de um conceito ao caracterizar o dinheiro como o meio de troca. A essência do dinheiro não consiste, em primeiro lugar, em que nele a propriedade seja alienada, mas em que a atividade ou o movimento mediador, o ato humano e social pelo qual os produtos dos homens se complementam mutuamente, é estranhado do homem e se torna atributo do dinheiro, uma coisa material exterior ao homem. Uma vez que o homem aliena essa própria atividade mediadora, ele aqui só atua como um homem que se perdeu e se desumanizou; a própria relação entre as coisas, a operação do homem com elas, torna-se a operação de uma entidade exterior ao homem e acima do homem. Devido a esse mediador alienado — em vez de o próprio homem ser o mediador para o homem — o homem considera sua vontade, sua atividade e sua relação com os outros homens como um poder independente dele e deles. Sua escravidão, portanto, atinge seu ápice. É claro que esse mediador agora se torna um Deus real, pois o mediador é o poder real sobre aquilo que ele medeia para mim. Seu culto torna-se um fim em si mesmo. Os objetos separados desse mediador perderam seu valor. Daí os objetos só terem valor na medida em que representam o mediador, ao passo que originalmente parecia que o mediador só tinha valor na medida em que os representava. Essa inversão da relação original é inevitável. Esse mediador é, portanto, a essência perdida e estranhada da propriedade privada, propriedade privada que se tornou alienada, exterior a si mesma, assim como ele é a atividade genérica alienada do homem, a mediação exteriorizada entre a produção do homem e a produção do homem. Todas as qualidades que surgem no curso dessa atividade são, portanto, transferidas para esse mediador. Daí o homem se tornar tanto mais pobre como homem, isto é, separado desse mediador, quanto mais rico esse mediador se torna.
Cristo representa originalmente: 1) os homens diante de Deus; 2) Deus para os homens; 3) os homens para o homem.
Do mesmo modo, o dinheiro representa originalmente, de acordo com a ideia do dinheiro: 1) a propriedade privada para a propriedade privada; 2) a sociedade para a propriedade privada; 3) a propriedade privada para a sociedade.
Mas Cristo é Deus alienado e homem alienado. Deus só tem valor na medida em que representa Cristo, e o homem só tem valor na medida em que representa Cristo. O mesmo ocorre com o dinheiro.
Por que a propriedade privada tem de se desenvolver no sistema monetário? Porque o homem, enquanto ser social, deve proceder à troca e porque a troca — estando pressuposta a propriedade privada — deve desenvolver o valor. O processo mediador entre os homens envolvidos na troca não é um processo social ou humano, não é uma relação humana; é a relação abstrata da propriedade privada com a propriedade privada, e a expressão dessa relação abstrata é o valor, cuja existência efetiva como valor constitui o dinheiro. Como os homens envolvidos na troca não se relacionam uns com os outros como homens, as coisas perdem o significado de propriedade humana e pessoal. A relação social da propriedade privada com a propriedade privada já é uma relação na qual a propriedade privada está estranhada de si mesma. A forma de existência para si dessa relação, o dinheiro, é, portanto, a alienação da propriedade privada, a abstração de sua natureza específica e pessoal.
Daí a oposição da economia política moderna ao sistema monetário, o système monétaire[1], não poder alcançar nenhuma vitória decisiva, apesar de toda a sua astúcia. Pois, se a crua superstição econômica do povo e dos governos se apega ao saco de dinheiro sensível, tangível e conspícuo e, portanto, acredita tanto no valor absoluto dos metais preciosos quanto na posse deles como a única realidade da riqueza — e se então o economista esclarecido e conhecedor do mundo aparece e lhes prova que o dinheiro é uma mercadoria como qualquer outra, cujo valor, assim como o de qualquer outra mercadoria, depende, portanto, da relação entre o custo de produção e a demanda, a concorrência e a oferta, da quantidade ou da concorrência das outras mercadorias —, esse economista recebe a resposta correta de que, não obstante, o verdadeiro valor das coisas é seu valor de troca e que este, em última instância, existe no dinheiro, assim como este existe nos metais preciosos, e que, consequentemente, o dinheiro representa o verdadeiro valor das coisas e, por essa razão, o dinheiro é a coisa mais desejável. Com efeito, em última instância, a própria teoria do economista se reduz a essa sabedoria, sendo a única diferença que ele possui a capacidade de abstração, a capacidade de reconhecer a existência do dinheiro sob todas as formas das mercadorias e, portanto, de não acreditar no valor exclusivo de seu modo oficial de existência metálica. A existência metálica do dinheiro é apenas a expressão oficial, palpável, da alma do dinheiro, que está presente em todos os ramos da produção e em todas as atividades da sociedade burguesa.
A oposição dos economistas modernos ao sistema monetário consiste meramente em que eles conceberam a essência do dinheiro em sua universalidade abstrata e, portanto, estão esclarecidos quanto à superstição sensível que acredita na existência exclusiva dessa essência no metal precioso. Eles substituem a superstição grosseira pela superstição refinada. Como, porém, ambas têm essencialmente a mesma raiz, a forma esclarecida da superstição não pode conseguir suplantar completamente a forma sensível grosseira, porque a primeira não ataca a essência da segunda, mas apenas a forma particular dessa essência.
O modo de existência pessoal do dinheiro enquanto dinheiro — e não apenas enquanto relação social interior, implícita, oculta, ou relação de classe entre mercadorias — corresponde tanto mais à essência do dinheiro quanto mais abstrato ele é, quanto menos possui uma relação natural com as outras mercadorias, quanto mais aparece como produto e, no entanto, como não-produto do homem, quanto menos primitiva é sua esfera de existência, quanto mais é criado pelo homem ou, em termos econômicos, quanto maior é a relação inversa de seu valor como dinheiro com o valor de troca ou valor monetário do material no qual ele existe. Daí o papel-moeda e todo o conjunto de representantes de papel do dinheiro (tais como letras de câmbio, mandatos, notas promissórias etc.) serem o modo de existência mais perfeito do dinheiro enquanto dinheiro e um fator necessário no desenvolvimento progressivo do sistema monetário. No sistema de crédito, do qual o sistema bancário é a expressão perfeita, parece como se o poder da força material alienada tivesse sido rompido, a relação de autoestranhamento abolida e o homem tivesse novamente relações humanas com o homem. Os saint-simonianos, enganados por essa aparência, consideraram o desenvolvimento do dinheiro, das letras de câmbio, do papel-moeda, dos representantes de papel do dinheiro, do crédito, do sistema bancário, como uma abolição gradual da separação do homem em relação às coisas, do capital em relação ao trabalho, da propriedade privada em relação ao dinheiro e do dinheiro em relação ao homem, e da separação do homem em relação ao homem. Um sistema bancário organizado é, portanto, seu ideal. Mas essa abolição do estranhamento, esse retorno do homem a si mesmo e, portanto, aos outros homens, é apenas uma aparência; o autoestranhamento, a desumanização, é tanto mais infame e extrema porque seu elemento já não é a mercadoria, o metal, o papel, mas a existência moral do homem, a existência social do homem, as profundezas mais íntimas de seu coração, e porque, sob a aparência da confiança do homem no homem, encontra-se o auge da desconfiança e o estranhamento completo. O que constitui a essência do crédito? Deixamos aqui inteiramente de lado o conteúdo do crédito, que é novamente dinheiro. Deixamos de lado, portanto, o conteúdo dessa confiança segundo a qual um homem reconhece outro homem ao adiantar-lhe determinada quantidade de valor e — no melhor dos casos, isto é, quando não exige pagamento pelo crédito, ou seja, não é um usurário que demonstra sua confiança em que seu semelhante não seja um vigarista, mas um homem “bom”. Por um homem “bom”, aquele que deposita sua confiança entende, como Shylock, um homem que é “capaz de pagar”.
O crédito é concebível em duas relações e sob duas condições diferentes. As duas relações são: primeiro, um homem rico concede crédito a um homem pobre que considera industrioso e decente. Esse tipo de crédito pertence à parte romântica, sentimental, da economia política, às suas aberrações, excessos, exceções, e não à regra. Mas mesmo supondo essa exceção e concedendo essa possibilidade romântica, a vida do homem pobre e seus talentos e sua atividade servem ao homem rico como uma garantia do reembolso do dinheiro emprestado. Isso significa, portanto, que todas as virtudes sociais do homem pobre, o conteúdo de sua atividade vital, sua própria existência, representam para o homem rico o reembolso de seu capital com os juros habituais. Daí a morte do homem pobre ser a pior eventualidade para o credor. É a morte de seu capital juntamente com os juros. Deve-se considerar quão vil é estimar o valor de um homem em dinheiro, como ocorre na relação de crédito. Naturalmente, o credor possui, além das garantias morais, também a garantia da coerção jurídica e ainda outras garantias mais ou menos reais sobre seu homem. Se o homem a quem o crédito é concedido é ele próprio um homem de posses, o crédito torna-se meramente um meio que facilita a troca, isto é, o próprio dinheiro é elevado a uma forma completamente ideal. O crédito é o julgamento econômico sobre a moralidade de um homem. No crédito, o próprio homem, em vez do metal ou do papel, tornou-se o mediador da troca, não, contudo, como homem, mas como o modo de existência do capital e dos juros. O meio de troca, portanto, certamente retornou de sua forma material e foi recolocado no homem, mas somente porque o próprio homem foi colocado para fora de si e assumiu ele próprio uma forma material. Na relação de crédito, não ocorre que o dinheiro seja superado no homem, mas que o próprio homem seja transformado em dinheiro, ou que o dinheiro seja incorporado nele. A individualidade humana, a própria moralidade humana, tornou-se tanto objeto de comércio quanto o material no qual o dinheiro existe. Em vez do dinheiro, ou do papel, é minha própria existência pessoal, minha carne e meu sangue, minha virtude social e minha importância, que constituem a forma material, corpórea, do espírito do dinheiro. O crédito já não resolve o valor do dinheiro em dinheiro, mas em carne humana e no coração humano. Tal é a extensão em que todo progresso e todas as inconsistências dentro de um sistema falso constituem extrema regressão e extrema consequência da vileza.
Dentro do sistema de crédito, sua natureza, estranhada do homem, sob a aparência de uma extrema valorização econômica do homem, opera de uma dupla maneira:
1) A antítese entre capitalista e trabalhador, entre grandes e pequenos capitalistas, torna-se ainda maior, pois o crédito é concedido somente àquele que já possui, constituindo uma nova oportunidade de acumulação para o homem rico, ou porque o homem pobre descobre que a discricionariedade arbitrária do homem rico e o julgamento deste sobre ele confirmam ou negam sua existência inteira e que sua existência depende inteiramente dessa contingência.
2) A dissimulação mútua, a hipocrisia e a santimônia são levadas a extremos, de modo que sobre o homem sem crédito não é proferido apenas o simples julgamento de que ele é pobre, mas, além disso, um julgamento moral pejorativo de que ele não possui confiança, nem reconhecimento e, portanto, é um pária social, um homem mau; e, além de sua privação, o homem pobre sofre essa humilhação e a necessidade humilhante de ter de pedir crédito ao homem rico.
3) Uma vez que, devido a essa existência completamente nominal do dinheiro, a falsificação não pode ser empreendida pelo homem em nenhum outro material senão em sua própria pessoa, ele tem de transformar-se em moeda falsa, obter crédito por meio de astúcia, mentira etc., e essa relação de crédito — tanto por parte do homem que confia quanto do homem que necessita de confiança — torna-se um objeto de comércio, um objeto de engano e abuso mútuos. Aqui também se torna flagrantemente evidente que a desconfiança é a base da confiança econômica; o cálculo desconfiado sobre se o crédito deve ou não ser concedido; a investigação dos segredos da vida privada etc. daquele que busca crédito; a divulgação de dificuldades temporárias a fim de derrubar um rival mediante a destruição súbita de seu crédito etc. Todo o sistema de falências, empreendimentos fraudulentos etc…. Quanto aos empréstimos governamentais, o Estado ocupa exatamente o mesmo lugar que o homem ocupava no exemplo anterior…. No jogo com títulos do governo, vê-se como o Estado se tornou o brinquedo dos homens de negócios etc.
4) O sistema de crédito finalmente encontra sua realização no sistema bancário. A criação dos banqueiros, a dominação política do banco, a concentração da riqueza nessas mãos, esse Areópago econômico da nação, constituem a conclusão digna do sistema monetário.
Devido ao fato de que, no sistema de crédito, o reconhecimento moral de um homem, assim como a confiança no Estado etc., assumem a forma de crédito, o segredo contido na mentira do reconhecimento moral, a vileza imoral dessa moralidade, assim como a santimônia e o egoísmo dessa confiança no Estado, tornam-se evidentes e mostram-se pelo que realmente são.
A troca, tanto da atividade humana no interior da própria produção quanto do produto humano entre si, é equivalente à atividade de espécie e ao espírito de espécie, cujo modo real, consciente e verdadeiro de existência é a atividade social e a fruição social. Como a natureza humana é a verdadeira comunidade dos homens, ao manifestar sua natureza, os homens criam, produzem, a comunidade humana, a entidade social, que não é um poder universal abstrato oposto ao indivíduo singular, mas é a natureza essencial de cada indivíduo, sua própria atividade, sua própria vida, seu próprio espírito, sua própria riqueza. Daí essa verdadeira comunidade não surgir por meio da reflexão; ela aparece em razão da necessidade e do egoísmo dos indivíduos, isto é, é produzida diretamente pela própria atividade vital deles. Não depende do homem que essa comunidade exista ou não; mas, enquanto o homem não se reconhecer como homem e, portanto, não tiver organizado o mundo de maneira humana, essa comunidade aparece sob a forma de estranhamento, porque seu sujeito, o homem, é um ser estranhado de si mesmo. Os homens, não como uma abstração, mas como indivíduos reais, vivos e particulares, são essa entidade. Portanto, assim como são, assim é a própria entidade. Dizer que o homem está estranhado de si mesmo é, portanto, o mesmo que dizer que a sociedade desse homem estranhado é uma caricatura de sua verdadeira comunidade, de sua verdadeira vida de espécie, que sua atividade, portanto, lhe aparece como um tormento, sua própria criação como um poder estranho, sua riqueza como pobreza, o vínculo essencial que o liga aos outros homens como um vínculo não essencial, e a separação de seus semelhantes, por outro lado, como seu verdadeiro modo de existência, sua vida como um sacrifício de sua vida, a realização de sua natureza como tornando sua vida irreal, sua produção como a produção de seu nada, seu poder sobre um objeto como o poder do objeto sobre ele, e ele próprio, o senhor de sua criação, como o servo dessa criação.
A comunidade dos homens, ou a manifestação da natureza dos homens, seu complemento mútuo, cujo resultado é a vida de espécie, a vida verdadeiramente humana — essa comunidade é concebida pela economia política sob a forma de troca e comércio. A sociedade, diz Destutt de Tracy, é uma série de trocas mútuas. É precisamente esse processo de integração mútua. A sociedade, diz Adam Smith, é uma sociedade comercial. Cada um de seus membros é um comerciante.
Vê-se que a economia política define a forma estranhada do intercâmbio social como a forma essencial e original correspondente à natureza do homem.
A economia política — assim como o processo real — parte da relação do homem com o homem como sendo a de proprietário a proprietário. Se o homem é pressuposto como proprietário, isto é, portanto, como proprietário exclusivo, que prova sua personalidade e tanto se distingue de outros homens quanto entra em relações com eles por meio dessa propriedade exclusiva — a propriedade privada é seu modo de existência pessoal, distintivo e, portanto, essencial —, então a perda ou a cessão da propriedade privada é uma alienação do homem, assim como o é da própria propriedade privada. Aqui nos ocuparemos apenas da última definição. Se eu cedo minha propriedade privada a outra pessoa, ela deixa de ser minha; torna-se algo independente de mim, situado fora de minha esfera, uma coisa externa a mim. Portanto, eu alienei minha propriedade privada. Com relação a mim, portanto, transformo-a em propriedade privada alienada. Mas eu apenas a transformo em uma coisa alienada em geral, aboli apenas minha relação pessoal com ela, devolvo-a aos poderes elementares da natureza se a alieno apenas com relação a mim. Ela se torna propriedade privada alienada somente se, ao deixar de ser minha propriedade privada, por isso mesmo não deixar de ser propriedade privada enquanto tal, isto é, se entrar na mesma relação com outro homem, separado de mim, que tinha comigo; em suma, se tornar-se a propriedade privada de outro homem. Excetuando-se o caso da violência — o que me leva a alienar minha propriedade privada a outro homem? A economia política responde corretamente: necessidade, carência. O outro homem também é um proprietário, mas é proprietário de outra coisa, que me falta e da qual não posso e não quero prescindir, que me parece uma necessidade para o complemento de minha existência e a realização de minha natureza.
O vínculo que conecta os dois proprietários entre si é o tipo específico de objeto que constitui a substância de sua propriedade privada. O desejo por esses dois objetos, isto é, a necessidade deles, mostra a cada um dos proprietários e o torna consciente de que ele possui ainda outra relação essencial com os objetos além daquela da propriedade privada, de que ele não é o ser particular que considera ser, mas um ser total, cujas necessidades mantêm uma relação de propriedade interior com todos os produtos, inclusive aqueles do trabalho de outro. Pois a necessidade de uma coisa é a prova mais evidente e irrefutável de que a coisa pertence à minha essência, de que seu ser é para mim, de que sua propriedade é a propriedade, a peculiaridade, de minha essência. Assim, ambos os proprietários são impelidos a renunciar à sua propriedade privada, mas a fazê-lo de tal maneira que, ao mesmo tempo, confirmem a propriedade privada, ou a renunciar à propriedade privada dentro daquela relação de propriedade privada. Cada um, portanto, aliena uma parte de sua propriedade privada ao outro.
A conexão social ou relação social entre os dois proprietários é, portanto, a da reciprocidade na alienação, estabelecendo a relação de alienação de ambos os lados, ou a alienação como relação de ambos os proprietários, ao passo que, na propriedade privada simples, a alienação ocorre apenas em relação a si mesmo, unilateralmente.
A troca ou o escambo é, portanto, o ato social, o ato de espécie, a comunidade, o intercâmbio social e a integração dos homens no interior da propriedade privada e, portanto, o ato de espécie externo e alienado. É precisamente por essa razão que ele aparece como escambo. Por essa razão, igualmente, ele é o oposto da relação social.
Por meio da alienação ou estranhamento recíproco da propriedade privada, a própria propriedade privada cai na categoria de propriedade privada alienada.[2] Pois, em primeiro lugar, ela deixou de ser o produto do trabalho de seu proprietário, sua personalidade exclusiva e distintiva. Pois ele a alienou, ela se afastou do proprietário cujo produto era e adquiriu um significado pessoal para alguém cujo produto ela não é. Ela perdeu seu significado pessoal para o proprietário. Em segundo lugar, ela foi colocada em relação com outra propriedade privada e posta em pé de igualdade com esta. Seu lugar foi ocupado por uma propriedade privada de tipo diferente, assim como ela própria ocupa o lugar de uma propriedade privada de tipo diferente. De ambos os lados, portanto, a propriedade privada aparece como representante de um tipo diferente de propriedade privada, como o equivalente de um produto natural diferente, e ambos os lados se relacionam entre si de tal maneira que cada um representa o modo de existência do outro, e ambos se relacionam entre si como substitutos de si mesmos e do outro. Daí o modo de existência da propriedade privada enquanto tal ter se tornado o de um substituto, de um equivalente. Em vez de sua unidade imediata consigo mesma, ela existe agora apenas como relação com algo outro. Seu modo de existência como equivalente já não é seu modo de existência específico. Ela se tornou, assim, um valor e, imediatamente, um valor de troca. Seu modo de existência como valor é uma designação alienada de si mesma, diferente de sua existência imediata, externa à sua natureza específica, um modo de existência meramente relativo desta.
Como esse valor é determinado mais precisamente deve ser descrito em outro lugar, assim como o modo pelo qual ele se torna preço.
Pressupondo-se a relação de troca, o trabalho torna-se diretamente trabalho para ganhar a vida. Essa relação de trabalho alienado atinge seu ponto culminante somente quando: 1) de um lado, o trabalho para ganhar a vida e o produto do trabalhador não possuem nenhuma relação direta com sua necessidade ou sua função como trabalhador, mas ambos os aspectos são determinados por combinações sociais estranhas ao trabalhador; 2) aquele que compra o produto não é ele próprio um produtor, mas dá em troca aquilo que outra pessoa produziu. Na forma grosseira da propriedade privada alienada, o escambo, cada um dos proprietários produziu aquilo que sua necessidade imediata, seus talentos e a matéria-prima disponível o impeliram a produzir. Cada um, portanto, troca com o outro apenas o excedente de sua produção. É verdade que o trabalho era sua fonte imediata de subsistência, mas, ao mesmo tempo, era também a manifestação de sua existência individual. Por meio da troca, seu trabalho tornou-se parcialmente uma fonte de renda. Seu propósito agora difere de seu modo de existência. O produto é produzido como valor, como valor de troca, como um equivalente, e não mais por causa de sua relação direta e pessoal com o produtor. Quanto mais diversificada se torna a produção e, portanto, quanto mais diversas se tornam as necessidades, por um lado, e quanto mais unilaterais se tornam as atividades do produtor, por outro, mais seu trabalho cai na categoria de trabalho para ganhar a vida, até que finalmente tenha apenas esse significado e se torne inteiramente acidental e não essencial se a relação do produtor com seu produto é a de fruição imediata e necessidade pessoal, e também se sua atividade, o próprio ato de trabalhar, é para ele a fruição de sua personalidade e a realização de suas capacidades naturais e objetivos espirituais.
O trabalho para ganhar a vida envolve: 1) estranhamento e conexão fortuita entre o trabalho e o sujeito que trabalha; 2) estranhamento e conexão fortuita entre o trabalho e o objeto do trabalho; 3) que o papel do trabalhador seja determinado por necessidades sociais que, contudo, lhe são estranhas, e por uma compulsão à qual ele se submete por necessidade e carência egoístas, e que têm para ele apenas o significado de um meio para satisfazer sua necessidade extrema, assim como, para elas, ele existe apenas como escravo de suas necessidades; 4) que, para o trabalhador, a manutenção de sua existência individual apareça como o objetivo de sua atividade e aquilo que ele efetivamente faz seja considerado por ele apenas como um meio; que ele conduza sua atividade vital a fim de obter meios de subsistência.
Daí, quanto maior e mais desenvolvida aparece a força social dentro da relação de propriedade privada, mais egoísta, antissocial e estranhado de sua própria natureza o homem se torna.
Assim como a troca recíproca dos produtos da atividade humana aparece como escambo, como comércio, assim também o complemento e a troca recíprocos da própria atividade aparecem como divisão do trabalho, que transforma o homem, tanto quanto possível, em um ser abstrato, uma ferramenta-máquina etc., e o transforma em um monstro espiritual e físico.
É precisamente a unidade do trabalho humano que é considerada meramente como divisão do trabalho, porque a natureza social só vem à existência como seu oposto, sob a forma de estranhamento. A divisão do trabalho aumenta com a civilização.
Dentro do pressuposto da divisão do trabalho, o produto, o material da propriedade privada, adquire para o indivíduo cada vez mais o significado de um equivalente, e, como ele já não troca apenas seu excedente, e o objeto de sua produção pode ser simplesmente uma questão de indiferença para ele, tampouco troca seu produto por algo de que tenha diretamente necessidade. O equivalente vem a existir como equivalente em dinheiro, que agora é o resultado imediato do trabalho para ganhar a vida e o meio de troca (ver acima).
A dominação completa da coisa estranhada sobre o homem tornou-se evidente no dinheiro, que é completamente indiferente tanto à natureza do material, isto é, à natureza específica da propriedade privada, quanto à personalidade do proprietário. O que era a dominação de pessoa sobre pessoa é agora a dominação geral da coisa sobre a pessoa, do produto sobre o produtor. Assim como o conceito de equivalente, o valor, já implicava a alienação da propriedade privada, assim também o dinheiro é a existência sensível, e até mesmo objetiva, dessa alienação.
Desnecessário dizer que a economia política só é capaz de apreender todo esse desenvolvimento como um fato, como resultado de uma necessidade fortuita.
A separação do trabalho de si mesmo — separação do trabalhador em relação ao capitalista — separação do trabalho e do capital, cuja forma original é constituída pela propriedade fundiária e pela propriedade móvel…. A característica determinante original da propriedade privada é o monopólio; portanto, quando ela cria uma constituição política, esta é a do monopólio. O monopólio perfeito é a concorrência.
Para o economista, produção, consumo e, como mediador de ambos, troca ou distribuição, são atividades separadas.[3] A separação da produção e do consumo, da ação e do espírito, em indivíduos diferentes e no mesmo indivíduo, é a separação do trabalho de seu objeto e de si mesmo enquanto algo espiritual. A distribuição é o poder da propriedade privada manifestando-se.
A separação do trabalho, do capital e da propriedade fundiária entre si, assim como a do trabalho em relação ao trabalho, do capital em relação ao capital e da propriedade fundiária em relação à propriedade fundiária e, finalmente, a separação do trabalho em relação aos salários, do capital em relação ao lucro, e do lucro em relação aos juros e, por último, da propriedade fundiária em relação à renda da terra, demonstram o autoestranhamento tanto sob a forma de autoestranhamento quanto sob a forma de estranhamento mútuo.
“Temos a seguir que examinar os efeitos que ocorrem pelas tentativas do governo de controlar o aumento ou a diminuição do dinheiro [….] Quando ele procura manter a quantidade de dinheiro menor do que seria se as coisas fossem deixadas em liberdade, ele eleva o valor do metal na moeda e torna do interesse de todo aquele [que puder] converter seus lingotes em dinheiro.” As pessoas “recorrem à cunhagem privada. O governo deve […] impedir isso mediante punição. Por outro lado, se fosse objetivo do governo manter a quantidade de dinheiro maior do que seria se deixada em liberdade, ele reduziria o valor do metal no dinheiro abaixo de seu valor em lingotes e faria do interesse de todos derreter as moedas. Isso também o governo teria apenas um expediente para impedir, a saber, a punição. Mas a perspectiva da punição prevalecerá sobre a perspectiva do lucro [, somente se o lucro for pequeno].” Pp. 101, 102 (pp. 137, 138).
Seção IX. “Se houvesse dois indivíduos, um dos quais devesse ao outro £100, e o outro lhe devesse £100”, em vez de pagarem essa quantia um ao outro, “tudo o que teriam de fazer seria trocar suas obrigações mútuas. O caso” é o mesmo entre duas nações…. Daí as letras de câmbio. “Seu uso foi recomendado por uma necessidade ainda mais forte […], porque a política grosseira daqueles tempos proibia a exportação dos metais preciosos e punia com a maior severidade qualquer infração … .” Pp. 104-05, 106 (p. 142 e seguintes).
Seção X. Poupança do consumo improdutivo por meio do papel-moeda. P. 108 e seguintes (p. 146 e seguintes).
Seção XI. “Os inconvenientes” do papel-moeda são … “Primeiro — A falha das partes pelas quais as notas são emitidas em cumprir seus compromissos. Segundo — Falsificação. Terceiro — A alteração do valor da moeda.” P. 110 (p. 149).
Seção XII. “… os metais preciosos são […] aquela mercadoria [que é a mais geralmente comprada e vendida…]. Somente podem ser exportadas aquelas mercadorias que são mais baratas no país de onde saem do que no país para o qual são enviadas; e somente podem ser importadas aquelas mercadorias que são mais caras no país para o qual chegam do que no país de onde são enviadas.” Consequentemente, depende do valor dos metais preciosos em um país se eles são importados ou exportados. Pp. 128, 129 [p. 175 e seguintes].
Seção XIII. “Quando falamos do valor do metal precioso, queremos dizer a quantidade de outras coisas pela qual ele será trocado.” Essa relação é diferente em diferentes países e até mesmo em diferentes partes do país. “Dizemos que viver é mais barato; em outras palavras, as mercadorias podem ser compradas com uma quantidade menor de dinheiro.” P. 131 [p. 177].
Seção XVI. A relação entre as nações é como aquela entre os comerciantes…. “Os comerciantes […] sempre comprarão no mercado mais barato e venderão no mais caro.” P. 159 (p. 215).
IV. Consumo.
“Produção, Distribuição, Troca […] são meios. Nenhum homem produz para a venda da produção [….] distribuição e troca são apenas as operações intermediárias [para colocar as coisas que foram produzidas nas mãos daqueles que irão] consumi-las.” P. 177 (p. 237).
Seção I. “Do consumo, há duas espécies.” 1) Produtivo. Ele inclui tudo o que é “despendido em razão de algo a ser produzido” e compreende “as necessidades do trabalhador….” A segunda classe então […] “máquinas; incluindo ferramentas […], os edifícios necessários às operações produtivas e até mesmo o gado. A terceira é o material a partir do qual a mercadoria a ser produzida deve ser formada ou do qual deve ser derivada”. Pp. 178, 179 (pp. 238, 239). “[Dessas três classes de coisas,] somente a segunda, cujo consumo não é completado no curso das operações produtivas.” P. 179 (loc. cit.).
2. Consumo improdutivo. “Os salários” pagos a um “lacaio” e “todo consumo que não ocorre com a finalidade de que algo que possa ser um equivalente para ele seja produzido por meio dele, é consumo improdutivo”. Pp. 179, 180 (p. 240). “O consumo produtivo é ele próprio um meio; é um meio para a produção. O consumo improdutivo […] não é um meio.” Ele “é o fim. Isso, ou a fruição que está envolvida nele, é o bem que constitui o motivo de todas as operações que o precederam.” P. 180 (p. 241). “Pelo consumo produtivo, nada é perdido [….] Tudo o que é consumido improdutivamente é perdido.” P. 180 (loc. cit.). “Aquilo que é consumido produtivamente é sempre capital. Esta é uma propriedade do consumo produtivo que merece ser particularmente observada [….] Tudo o que é consumido produtivamente” é capital e “torna-se capital.” P. 181 (p. [241,] 242). “A totalidade daquilo que as forças produtivas do país trouxeram à existência no curso de um ano é chamada de produto anual bruto. Deste, a maior parte é necessária para substituir o capital que foi consumido [….] O que resta do produto bruto, depois de substituir o capital que foi consumido, é chamado de produto líquido; e é sempre distribuído como lucros do capital ou como renda.” Pp. 181, 182 (pp. 242, 243). “Esse produto líquido é o fundo do qual normalmente se faz todo acréscimo ao capital nacional.” (loc. cit.) “… as duas espécies de consumo” correspondem às “duas espécies de trabalho, produtivo e improdutivo….” P. 182 (p. 244).
Seção II. “… tudo o que é produzido anualmente é consumido anualmente; ou […] o que é produzido em um ano é consumido no seguinte.” Seja produtiva ou improdutivamente. P. 184 (p. 246).
Seção III. “O consumo é coextensivo à produção.” “Um homem produz somente porque deseja ter. Se a mercadoria que ele produz é a mercadoria que deseja ter, ele para quando produziu tanto quanto deseja ter [….] Quando um homem produz uma quantidade maior […] do que deseja para si mesmo, isso só pode ocorrer por uma razão; a saber, que ele deseja alguma outra mercadoria, que pode obter em troca do excedente daquilo que ele próprio produziu…. Se um homem deseja uma coisa e produz outra, isso só pode ocorrer porque a coisa que deseja pode ser obtida por meio da coisa que produz, e obtida melhor do que se tivesse tentado produzi-la ele próprio. Depois que o trabalho foi dividido […] cada produtor se restringe a alguma mercadoria ou parte de uma mercadoria, apenas uma pequena parcela daquilo que produz é utilizada para seu próprio consumo. O restante ele destina a suprir-se de todas as outras mercadorias que deseja; e quando cada homem se restringe a uma mercadoria e troca aquilo que produz pelo que é produzido por outras pessoas, verifica-se que cada um obtém mais das várias coisas que deseja do que teria obtido se tivesse tentado produzi-las todas para si mesmo.”
“No caso do homem que produz para si mesmo, não há troca. Ele não oferece nem para comprar algo nem para vender algo. Ele possui a propriedade; ele a produziu; e não pretende desfazer-se dela. Se aplicarmos, por uma espécie de metáfora, os termos demanda e oferta a esse caso, está implícito […] que a demanda e a oferta são exatamente proporcionais entre si. No que diz respeito, portanto, à demanda e à oferta do mercado, podemos deixar inteiramente de lado aquela parcela do produto anual que cada proprietário consome na forma em que o produz ou recebe.” Pp. 186, 187.
“Ao falar aqui de demanda e oferta, é evidente que falamos de agregados. Quando dizemos de uma determinada nação, em determinado momento, que sua oferta é igual à sua demanda, não queremos dizer em relação a uma mercadoria específica, ou a duas mercadorias. Queremos dizer que o montante de sua demanda por todas as mercadorias tomadas em conjunto é igual ao montante de sua oferta de todas as mercadorias tomadas em conjunto. Pode muito bem acontecer, não obstante essa igualdade na soma geral das demandas e ofertas, que alguma mercadoria ou mercadorias tenham sido produzidas em quantidade acima ou abaixo da demanda por essas mercadorias particulares.” P. 188 (pp. 251, 252). “Duas coisas são necessárias para constituir uma demanda. São elas — Um desejo pela mercadoria e Um equivalente para dar por ela. Uma demanda significa a vontade de comprar e os meios de comprar. Se qualquer um deles faltar, a compra não ocorre. Um equivalente é o fundamento necessário de toda demanda. É inútil que um homem deseje mercadorias se não tem nada para dar por elas. O equivalente que um homem traz é o instrumento da demanda. A extensão de sua demanda é medida pela extensão de seu equivalente. A demanda e o equivalente são termos conversíveis, e um pode ser substituído pelo outro. […] Já vimos que todo homem que produz deseja outras mercadorias além daquelas que produziu, na extensão de tudo aquilo que produziu além do que deseja manter para seu próprio consumo. E é evidente que tudo o que um homem produziu e não deseja manter para seu próprio consumo constitui um estoque que pode dar em troca de outras mercadorias. Sua vontade, portanto, de comprar, e seus meios de comprar — em outras palavras, sua demanda — são exatamente iguais ao montante daquilo que produziu e não pretende consumir.” Pp. 188-89 (pp. 252, 253).
Com sua habitual perspicácia e clareza cínicas, Mill analisa aqui a troca com base na propriedade privada.
O homem produz somente para ter — esse é o pressuposto básico da propriedade privada. O objetivo da produção é o ter. E não somente a produção possui esse tipo de objetivo útil; ela possui também um objetivo egoísta; o homem produz somente para possuir para si; o objeto que produz é a objetivação de sua necessidade imediata, egoísta. Para o próprio homem — em uma condição selvagem e bárbara —, portanto, a quantidade de sua produção é determinada pela extensão de sua necessidade imediata, cujo conteúdo é diretamente o objeto produzido.
Sob essas condições, portanto, o homem não produz mais do que requer imediatamente. O limite de sua necessidade constitui o limite de sua produção. Assim, demanda e oferta coincidem exatamente. A extensão de sua produção é medida por sua necessidade. Nesse caso, não ocorre troca, ou a troca é reduzida à troca de seu trabalho pelo produto de seu trabalho, e essa troca é a forma latente, o germe, da troca real.
Assim que a troca ocorre, um excedente é produzido para além do limite imediato da posse. Mas essa produção excedente não significa elevar-se acima da necessidade egoísta. Ao contrário, é apenas uma maneira indireta de satisfazer uma necessidade que encontra sua objetivação não nesta produção, mas na produção de outra pessoa. A produção tornou-se um meio de ganhar a vida, trabalho para ganhar a vida. Enquanto, portanto, no primeiro estado de coisas, a necessidade é a medida da produção, no segundo estado de coisas a produção, ou melhor, a propriedade do produto, é a medida de até que ponto as necessidades podem ser satisfeitas.
Eu produzi para mim e não para você, assim como você produziu para si e não para mim. Em si mesmo, o resultado da minha produção tem tão pouca conexão com você quanto o resultado de sua produção tem diretamente comigo. Isto é, nossa produção não é a produção do homem para o homem enquanto homem, isto é, não é uma produção social. Nenhum de nós, portanto, enquanto homem, mantém uma relação de fruição com o produto do outro. Enquanto homens, não existimos no que diz respeito aos nossos respectivos produtos. Daí nossa troca também não poder ser o processo mediador pelo qual se confirma que meu produto é [para] você, porque ele é uma objetivação de sua própria natureza, de sua necessidade. Pois não é a natureza do homem que constitui o vínculo entre os produtos que fazemos uns para os outros. A troca só pode colocar em movimento, só pode confirmar, o caráter da relação que cada um de nós mantém em relação ao seu próprio produto e, portanto, ao produto do outro. Cada um de nós vê em seu produto apenas a objetivação de sua própria necessidade egoísta e, portanto, no produto do outro, a objetivação de uma necessidade egoísta diferente, independente dele e estranha a ele.
Como homem, você tem, é claro, uma relação humana com meu produto: você necessita do meu produto. Daí ele existir para você como objeto de seu desejo e de sua vontade. Mas sua necessidade, seu desejo, sua vontade são impotentes no que diz respeito ao meu produto. Isso significa, portanto, que sua natureza humana, que, consequentemente, está destinada a manter uma relação íntima com minha produção humana, não é seu poder sobre essa produção, sua posse dela, pois não é o caráter específico, não é o poder, da natureza humana que é reconhecido em minha produção. Eles [sua necessidade, seu desejo etc.] constituem antes o vínculo que o torna dependente de mim, porque o colocam em uma posição de dependência em relação ao meu produto. Longe de serem o meio que lhe daria poder sobre minha produção, são, ao contrário, o meio de me dar poder sobre você.
Quando produzo mais de um objeto do que eu mesmo posso utilizar diretamente, minha produção excedente é astutamente calculada para sua necessidade. É apenas na aparência que produzo um excedente desse objeto. Na realidade, produzo um objeto diferente, o objeto de sua produção, que pretendo trocar por esse excedente, uma troca que, em minha mente, já completei. A relação social na qual me encontro com você, meu trabalho para sua necessidade, é, portanto, também uma mera aparência, e nosso complemento mútuo é igualmente uma mera aparência, cuja base é a pilhagem mútua. A intenção de pilhar, de enganar, está necessariamente presente em segundo plano, pois, uma vez que nossa troca é egoísta, tanto de sua parte quanto da minha, e uma vez que o egoísmo de cada um procura levar vantagem sobre o do outro, necessariamente procuramos enganar um ao outro. É verdade, contudo, que o poder que atribuo ao meu objeto sobre o seu requer o seu reconhecimento para se tornar um poder real. Nosso reconhecimento mútuo dos respectivos poderes de nossos objetos, porém, é uma luta, e, em uma luta, o vencedor é aquele que possui mais energia, força, perspicácia ou destreza. Se tenho força física suficiente, pilho você diretamente. Se a força física não pode ser utilizada, tentamos impor-nos um ao outro por meio de blefe, e o mais astuto leva vantagem sobre o outro. Para a totalidade da relação, é uma questão de acaso quem leva vantagem sobre quem. A vantagem ideal, intencionada, ocorre de ambos os lados, isto é, cada um, em seu próprio julgamento, levou vantagem sobre o outro.
De ambos os lados, portanto, a troca é necessariamente mediada pelo objeto que cada lado produz e possui. A relação ideal com os respectivos objetos de nossa produção é, naturalmente, nossa necessidade mútua. Mas a relação real, verdadeira, que efetivamente ocorre e se efetiva, é apenas a posse mutuamente exclusiva de nossos respectivos produtos. O que dá à sua necessidade de meu artigo seu valor, seu preço e seu efeito para mim é unicamente o seu objeto, o equivalente do meu objeto. Nossos respectivos produtos são, portanto, os meios, o mediador, o instrumento, o poder reconhecido de nossas necessidades mútuas. Sua demanda e o equivalente de sua posse, portanto, são, para mim, termos de igual significado e validade, e sua demanda só adquire um significado, em virtude de produzir um efeito, quando tem significado e efeito em relação a mim. Como mero ser humano, sem esse instrumento, sua demanda é uma aspiração insatisfeita de sua parte e uma ideia que não existe para mim. Como ser humano, portanto, você não mantém nenhuma relação com meu objeto, porque eu mesmo não tenho nenhuma relação humana com ele. Mas o meio é o verdadeiro poder sobre um objeto e, portanto, consideramos mutuamente nossos produtos como o poder de cada um de nós sobre o outro e sobre si mesmo. Isto é, nosso próprio produto se ergueu contra nós; parecia ser nossa propriedade, mas, na realidade, somos propriedade dele. Nós mesmos somos excluídos da verdadeira propriedade porque nossa propriedade exclui outros homens.
A única linguagem inteligível na qual conversamos uns com os outros consiste em nossos objetos em sua relação uns com os outros. Não compreenderíamos uma linguagem humana, e ela permaneceria sem efeito. De um lado, ela seria reconhecida e sentida como um pedido, uma súplica e, portanto, uma humilhação, sendo, consequentemente, proferida com um sentimento de vergonha, de degradação. Do outro lado, seria considerada insolência ou loucura e rejeitada como tal. Estamos tão estranhados da natureza essencial do homem que a linguagem direta dessa natureza essencial nos parece uma violação da dignidade humana, enquanto a linguagem estranhada dos valores materiais parece ser a afirmação plenamente justificada da dignidade humana, autoconfiante e consciente de si.
Embora, aos seus olhos, seu produto seja um instrumento, um meio, para tomar posse do meu produto e, assim, satisfazer sua necessidade; aos meus olhos, contudo, ele é o objetivo de nossa troca. Para mim, você é antes o meio e o instrumento para produzir esse objeto que é meu objetivo, assim como, inversamente, você se encontra na mesma relação com meu objeto. Mas: 1) cada um de nós efetivamente se comporta da maneira como é considerado pelo outro. Você efetivamente se tornou o meio, o instrumento, o produtor de seu próprio objeto a fim de obter a posse do meu; 2) seu próprio objeto é para você apenas a cobertura perceptível pelos sentidos, a forma oculta, do meu objeto; pois sua produção significa e procura expressar a aquisição do meu objeto. Na realidade, portanto, você se tornou para si mesmo um meio, um instrumento de seu objeto, do qual seu desejo é o servo, e você realizou serviços servis para que o objeto nunca mais tivesse de prestar um favor ao seu desejo. Se, então, nossa servidão mútua ao objeto no início do processo se revela agora, na realidade, como a relação entre senhor e escravo, isso é apenas a expressão grosseira e franca de nossa relação essencial.
Nosso valor mútuo é, para nós, o valor de nossos objetos mútuos. Daí o próprio homem ser, para nós, mutuamente de nenhum valor.
Suponhamos que tivéssemos realizado a produção como seres humanos. Cada um de nós teria afirmado a si mesmo e à outra pessoa de duas maneiras. 1) Em minha produção, eu teria objetivado minha individualidade, seu caráter específico e, portanto, desfrutado não apenas de uma manifestação individual de minha vida durante a atividade, mas também, ao contemplar o objeto, teria o prazer individual de saber que minha personalidade é objetiva, visível aos sentidos e, portanto, um poder para além de qualquer dúvida. 2) Em sua fruição ou uso de meu produto, eu teria a fruição direta tanto de ter consciência de haver satisfeito uma necessidade humana por meio de meu trabalho, isto é, de ter objetivado a natureza essencial do homem, quanto de haver assim criado um objeto correspondente à necessidade da natureza essencial de outro homem. 3) Eu teria sido para você o mediador entre você e a espécie e, portanto, seria reconhecido e sentido por você mesmo como um complemento de sua própria natureza essencial e como uma parte necessária de você mesmo e, consequentemente, saberia estar confirmado tanto em seu pensamento quanto em seu amor. 4) Na expressão individual de minha vida, eu teria criado diretamente a expressão de sua vida e, portanto, em minha atividade individual teria diretamente confirmado e realizado minha verdadeira natureza, minha natureza humana, minha natureza comunitária.
Nossos produtos seriam tantos espelhos nos quais veríamos refletida nossa natureza essencial.
Essa relação seria, além disso, recíproca; o que ocorre do meu lado também teria de ocorrer do seu.
Revisemos os diversos fatores tal como aparecem em nossa suposição:
Meu trabalho seria uma manifestação livre da vida, portanto uma fruição da vida. Pressupondo a propriedade privada, meu trabalho é uma alienação da vida, pois trabalho para viver, para obter para mim os meios de vida. Meu trabalho não é minha vida.
Em segundo lugar, a natureza específica de minha individualidade seria, portanto, afirmada em meu trabalho, uma vez que este seria uma afirmação de minha vida individual. O trabalho seria, portanto, propriedade verdadeira, ativa. Pressupondo a propriedade privada, minha individualidade é alienada em tal grau que essa atividade é, ao contrário, odiosa para mim, um tormento, e antes a aparência de uma atividade. Daí também ser apenas uma atividade forçada e imposta a mim somente por uma necessidade externa, fortuita, e não por uma necessidade interior, essencial.
Meu trabalho só pode aparecer em meu objeto como aquilo que ele é. Ele não pode aparecer como algo que, por sua natureza, não é. Daí aparecer apenas como a expressão de minha perda de mim mesmo e de minha impotência, que é objetiva, perceptível aos sentidos, evidente e, portanto, colocada para além de qualquer dúvida.[4]
– Karl Marx, 1844
Notas de rodapé:
[1] Traduzido como “Sistema Monetário”: esta era uma crença específica entre os primeiros mercantilistas. Eles sustentavam que a riqueza consistia no próprio dinheiro, na constituição de reservas de lingotes. É por isso que a exportação de ouro ou prata não era permitida, obrigando a existência de balanças comerciais ativas entre as nações.
[2] Esta passagem, no alemão original, lê-se: “Durch die wechselseitige Entäusserung oder Entfremdung des Privateigentums ist das Privateignetum selbst in die Bestimmung des entäusserten Privateigentums geraten.” Ela demonstra que, ao utilizar os termos “Entäusserung” e “Entfremdung” para denotar alienação, Marx lhes atribuiu um significado idêntico, ou quase idêntico. Em todas as traduções do jovem Marx, as Collected Works traduzem Entäusserung como “alienation” e Entfremdung como “estrangement”. Tomaram essa decisão com base no fato de que Marx mais tarde (Theories of Surplus-Value) empregaria diretamente a palavra alienation como equivalente inglês de Entäusserung.
[3] Isto se refere principalmente a James Mill, que dividiu seu sistema de economia política em quatro seções independentes: Produção, Distribuição, Troca e Consumo.
[4] O restante do compêndio contém outros excertos do livro de Mill. Depois dos excertos que tratam da questão da renda da terra, do lucro do capital e dos salários como fontes de tributação e receitas do Estado, Marx escreveu:
“Desnecessário dizer que Mill, assim como Ricardo, nega desejar incutir em qualquer governo a ideia de que a renda da terra deveria ser transformada na única fonte de impostos, uma vez que isso seria uma medida partidária que colocaria um ônus injusto sobre uma determinada classe de indivíduos. Mas — e este é um mas de enorme importância, insidioso — mas o imposto sobre a renda da terra é o único imposto que não é prejudicial do ponto de vista da economia política, portanto, o único imposto justo do ponto de vista da economia política. Com efeito, a única dúvida levantada pela economia política é antes uma atração do que uma causa de apreensão, a saber, que mesmo em um país com uma população ordinária e de tamanho ordinário, a quantia proporcionada pela renda da terra excederia as necessidades do governo.”
Primeira publicação: na íntegra em Marx/Engels, Gesamtausgabe, Primeira Seção, Volume 3, Berlim, 1932; | Primeira tradução para o inglês: por Clemens Dutt para as Collected Works.
ATENÇÃO:
Texto retirado de: marxists.org (‘Comments on James Mill, Éléments D’économie Politique’) | Traduzido ao português com IA
