
Robert Kurz, filósofo marxista, jornalista e editor da revista EXIT!, faleceu infelizmente em 18 de julho de 2012, aos 68 anos. Robert Kurz foi uma das pouquíssimas pessoas nos últimos anos com a capacidade de analisar o sistema capitalista no nível de seus próprios termos sofisticados. Seus melhores escritos ainda precisam ser traduzidos para o inglês. Publicamos abaixo um simpósio em mesa-redonda do qual ele participou sobre a crise econômica, realizado anteriormente em 2012.
Outros participantes incluíram Thomas Ebermann, Michael Heinrich e Joseph Vogl.
Michael Heinrich, cientista político e matemático, é editor-chefe da revista “Prokla” e autor do livro Uma introdução aos três volumes de O Capital de Karl Marx (Monthly Review Press, 2012). Thomas Ebermann é jornalista. Joseph Vogl é professor de Literatura Alemã na Universidade Humboldt de Berlim e autor do livro Das Gespenst des Kapitals (2010). Hermann L. Gremliza é editor da revista mensal de esquerda konkret. Este artigo apareceu originalmente em alemão na edição de dezembro de 2011 da konkret. Uma transcrição não editada da discussão completa acaba de ser publicada no livro No way out? 14 Versuche, die gegenwärtige Finanz- und Wirtschaftskrise zu verstehen, editado por Germann L. Gremliza.
Gremliza: O que acontece se ocorrer o pior dos piores, o cenário que todo mundo está traçando: o colapso do sistema financeiro? Não haverá mais pãezinhos, haverá um apagão, os trens do metrô ficarão parados? Ou será o grande estouro a partir do qual August Bebel viu a revolução surgir? O fim do capitalismo?
Vogl: Nem uma coisa nem outra. A produção não vai parar, nem o capitalismo vai sucumbir dessa maneira. Por várias razões: primeiro, um colapso do sistema financeiro é a precondição para a possibilidade de alguns atos de redistribuição há muito adiados: redistribuição de cima para baixo. E, além disso, pode-se afirmar em sã consciência que algo como este capitalismo, seja lá o que ele for, não entrará em colapso como resultado de suas tensões ou contradições internas.
Kurz: É preciso distinguir entre uma crise ou mesmo o colapso do capitalismo e a transcendência do capitalismo. São duas coisas completamente diferentes. A verdadeira transcendência emancipatória do capitalismo depende de uma consciência crítica, que pode se desenvolver ou não. Isso é independente da crise. O capitalismo é uma imposição que deve ser sempre criticada. A crise, por outro lado, é puramente objetiva, não um resultado da crítica, mas antes de uma lógica sistêmica independente da consciência dos agentes sociais. Entretanto, as condições da crítica podem se intensificar e mudar, assim como a crítica prática pode fazê-lo por meio dos desenvolvimentos da crise. Um colapso do sistema financeiro global está, na verdade, atrasado. De uma maneira sem precedentes na história do capitalismo, a futura criação de mais-valor já está hipotecada. O capitalismo já consumiu seu futuro em tal medida que uma recuperação simplesmente não é mais possível. Há agora, passo a passo, um processo no qual essa criação de valor irreal e antecipada é realizada como um desenvolvimento de crise. O que acontece quando ocorre um colapso? Não é apenas um colapso do sistema financeiro. Antes, aquilo que foi pré-financiado aqui durante um período miseravelmente longo é a reprodução efetiva. Tudo está endividado.
Gremliza: Então as luzes vão se apagar?
Kurz: Sim, acho que sim. Um colapso significaria que tudo aquilo que já não pode efetivamente ser financiado será paralisado. E já estamos vivenciando isso, mas até agora o choque foi absorvido. Agora, se ocorrer um crash na dimensão alcançada até aqui, então as coisas ficarão paralisadas na esfera real da reprodução. Começando pelos setores estatais de infraestrutura, saúde, educação, até a produção industrial e os serviços privados, tudo.
Heinrich: Eu discordo. É preciso ver a crise atual no contexto dos processos de crise dos últimos dez a quinze anos. Na década de 1990 tivemos crises monetárias, a crise asiática e, depois da virada do milênio, a crise da Nova Economia; depois, a crise financeira de 2008 e agora a crise do euro. Nessas crises, ficou claro que havia surgido um sistema financeiro inflado que, em sua extensão, já não se ajustava à chamada economia real. Nos últimos trinta anos, houve toda uma série de processos de redistribuição entre capital e trabalho, entre Estado e empresas, houve déficits internacionais em conta corrente. Em média, o capital ganhou bastante em todo o mundo. É o vencedor dessas lutas distributivas. Isso levou a uma situação que Marx descreveu como um excesso de capital monetário, que fluiu para uma multiplicidade de títulos financeiros. Para o funcionamento do capital, é necessário um ajuste desses títulos. Surgiram direitos que já não podem ser realizados. Uma parte desses direitos financeiros precisa ser baixada e desvalorizada.
Se isso acontecer, nem uma única fábrica será destruída. Isso não fará com que um forno de padaria pare de funcionar. Esse processo de desvalorização e ajuste não será um processo suave. Se houver colapsos bancários, se o comércio interbancário entrar em colapso, isso terá um efeito sobre o crédito às empresas. Algumas empresas entrarão em falência. Um colapso do sistema financeiro pode certamente levar a uma crise econômica, na qual não teremos apenas uma queda de cinco por cento no desempenho econômico, como na Alemanha em 2009, mas de 10 ou 20 por cento, com um enorme aumento do desemprego e uma queda maciça nos padrões de vida. Já podemos ver tudo isso na Grécia. Mas isso não significa o fim do capitalismo.
Ebermann: Se estamos falando de previsões, certas coisas precisam ser ditas: que tipo de hiperinflação pode ser esperada em dois ou três anos; quando a grande reforma monetária estará na agenda; quando todas as nossas pequenas economias estarão na lata de lixo. Mais importante é a questão: quem emerge desta crise, se todos perdem, como o relativamente menor perdedor, isto é, o vencedor? A Sra. Merkel anunciou: a Alemanha sairá vencedora, e colocou algumas coisas em movimento para que esse seja o caso. Parte disso está ameaçada.
As mentes mais inteligentes da elite na Alemanha e na França chegaram à conclusão de que não estão estrategicamente em condições de competir contra os EUA. Alemanha e França não podem governar a Europa sozinhas, então elaboraram um plano para realizar isso com alguns outros Estados por meio da UE. Esse é o ponto de partida: um poder econômico aproximadamente equivalente, talvez até uma força militar comparável no longo prazo. Esse é o projeto da UE. Em contraste com a afirmação subliminar de que somos o caixa da Europa e sua pobre vítima, isso na verdade trouxe imensas vantagens para a Alemanha: a Alemanha tem um volume fantástico de exportações dentro da zona do euro, que não é prejudicado por nenhuma fronteira monetária ou alfandegária. A Alemanha trata muitos países, por exemplo, a Grécia, simplesmente como mercados de exportação. Sua capacidade de competir é eliminada e, enquanto recebiam crédito, eles tinham que comprar produtos de exportação alemães. Assim, ocorreu uma transferência de riqueza para a Alemanha. A Alemanha está bem posicionada em termos de política monetária. Se o euro não existisse e a Alemanha fosse obrigada a competir com seu forte marco alemão, seus problemas seriam comparáveis aos da Suíça ou provavelmente ainda piores. Portanto, dizia-se: a Europa está aberta para nós; em termos de política de poder e economicamente, podemos competir com os EUA como moeda de reserva global, e mais tarde até com a China.
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Entretanto, nesse processo em que a UE, como projeto franco-alemão, é constituída a partir de diferentes Estados-nação concorrentes, existem contradições consideráveis. Os jornais dizem que é ultrajante que os políticos estejam brigando entre si. Como se a busca de interesses nacionais fosse algo incomum. Isso é engraçado. Todos os dias, o Süddeutsche Zeitung diz que os políticos deveriam chegar a um acordo. Como se Sarkozy pudesse simplesmente ignorar o fato de que os bancos franceses sofreriam mais no caso de uma falência grega do que os bancos alemães. Ou como se a Alemanha pudesse ignorar o fato de que a ideia de Sarkozy de ligar as prensas de dinheiro causaria danos consideráveis ao projeto de tornar o euro a principal moeda global.
A confiança soberana de que a Alemanha emergiria como vencedora deu lugar a todos os tipos de preocupações, de modo que se pode dizer: o capitalista total ideal tem um problema, no momento, para articular uma perspectiva coerente. Mas agora há uma discussão sobre o ponto em que nossa dominação dos pobres coitados, das nações da periferia e de seus mercados, se torna contraproducente. A Alemanha, medida em relação a outras partes do mundo, sofre de uma estreiteza mental nacionalista extrema: nada de ligar as prensas, nada de eurobonds — eles seriam caros demais para a Alemanha —, nenhuma união de transferências. Esse é o ponto de vista enormemente chauvinista com o qual a população está muito de acordo. O subordinado alemão está sempre preocupado que seu soberano não lhe conceda privilégios suficientes em relação a outros países e estrangeiros. Essa é a preocupação de Hans-Olaf Henkel, que ele compartilha com amplas massas da população. Como tudo isso vai terminar, não sei.
Heinrich: Você enfatizou corretamente o aspecto da competição entre Estados. Entretanto, a nova situação há cerca de dez anos é que aqueles de nós no núcleo da UE temos uma moeda comum, e a moeda comum é o vínculo econômico mais forte concebível. A questão é saber se essa base ainda se ajusta à superestrutura política fragmentada. É verdade que o capitalista total ideal não sabe, no momento, exatamente o que deveria fazer. Mas a questão é se esse capitalista total ideal ainda pode agir em nível nacional ou se deve, antes, agir em nível europeu. Mas, nesse nível, esses interesses concorrentes predominam. Temos uma situação na qual o capitalista total ideal não está em condições de implementar — em parte contra os interesses de capitais individuais — políticas que, no longo prazo, seriam necessárias para esses interesses do capital. Essa situação é comparável à dos EUA. Lá existe um Estado unificado, mas sua classe política está em grande medida paralisada no momento. Lá também temos uma situação em que o capitalista total ideal não sabe exatamente o que fazer. Em ambos os centros capitalistas, o Estado está bastante inibido em sua função de capitalista total ideal.
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Vogl: O que é uma constelação completamente nova é aquilo que se poderia chamar de globosclerose. As entidades, assim como os critérios para os processos de decisão política, na realidade não existem no momento; tornaram-se indistintos. Isso é um efeito desse sistema. E, naturalmente, isso tem algo a ver com a economia e a distribuição, com o local dessas decisões. No momento, não está claro qual entidade política, econômica, nacional ou internacional poderia efetivamente assumir a forma de um tomador de decisões.
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Eu discordo de Robert Kurz. Pode-se chamar isso de ajuste ou do que quer que seja. Penso que um ajuste bastante dramático vem ocorrendo há muito tempo. Em particular, a indústria financeira levou a sério uma antiga lição marxista e reconheceu que, para a sobrevivência do sistema, é preciso moderar o conflito entre trabalho e capital e, assim, incorporou mecanismos regulares de conciliação. Um desses mecanismos cínicos de conciliação foi a desconexão gradual entre a reprodução do capital e o processo de trabalho — por meio de vários desenvolvimentos: não apenas por meio da precarização do trabalho, mas também por meio do “prosumer”, consumidores que eles próprios se envolvem na produção dos produtos que compram, o princípio da IKEA e assim por diante. Há pelo menos dez ou vinte anos, um processo foi colocado em movimento — com a relativa independência da reprodução do capital em relação ao fardo do trabalho e, portanto, em relação a mecanismos como a tendência à queda da taxa de lucro.
Kurz: Considero isso um rumor.
Vogl: A tendência à queda da taxa de lucro tem a ver com a dureza irresistível do fator trabalho, que não pode, em última instância, ser banido do processo de produção. Não se pode esquecer que aquilo que tem sido chamado de financeirização desde a década de 1970, em essência, foi desencadeado pela indústria nos Estados Unidos. Certas taxas de retorno sobre o investimento já não eram possíveis — apesar de uma redução dos custos salariais, apesar da automação, apesar da terceirização para a América Latina — e o reinvestimento fluiu para produtos financeiros. Existe uma conexão direta. Pode-se ver, penso eu, que novas formas de recursos capitalistas foram constituídas. As pessoas em torno de Antonio Negri chamam isso de biocapitalismo. Isso significa que certos recursos humanos são absorvidos, os quais não são definidos nas relações de trabalho.
Heinrich: Tenho enormes dúvidas quanto a isso.
Vogl: Pense no Facebook ou no Google, onde atualmente são obtidos os maiores retornos. Isso não tem nada a ver com trabalho produtivo, mas sim com a absorção de períodos de uso.
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Heinrich: Certamente há vários exemplos de trabalho sendo explorado de diferentes maneiras. Isso é verdade no caso da terceirização de todos os tipos de serviços, em que trabalhadores assalariados são transformados em trabalhadores formalmente autônomos, que na realidade continuam sendo trabalhadores assalariados, mas sem as proteções pelas quais se lutou no passado. Mas nada disso me parece alterar fundamentalmente o modelo capitalista. São simplesmente, como Marx já havia analisado, diferentes formas de remuneração e controle.
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O capitalismo, e aqui eu concordaria com Robert Kurz, é um processo com uma trajetória. Não é simplesmente a repetição do eternamente mesmo. Existem desenvolvimentos, não apenas o desenvolvimento dos meios de produção, mas também a completa capitalização de novos espaços, tanto geograficamente quanto em termos de profundidade. Se o sistema de saúde é privatizado, isso significa que ele é subsumido ao processo de valorização do capital. Há sempre processos nos quais algo historicamente novo acontece, mas, em termos de falar de um ponto de culminação, não vejo os argumentos que poderiam fundamentar isso.
Sempre temos esses pontos decisivos. A crise do dólar de 1969, a abolição do padrão-ouro por Nixon em 1973, mesmo naquela época poderia-se dizer: nunca antes havíamos experimentado uma crise monetária como essa e mudanças como essas — este é agora o grande ponto de culminação. Mas, na verdade, foi um ponto de virada: um modelo capitalista foi substituído por outro. O capitalismo fortemente regulado, fordista, de Bretton Woods das décadas de 1950 e 1960 foi substituído na década de 1970 pelo capitalismo pós-fordista e neoliberal, que trouxe ao capitalismo os ganhos enormes com os quais ele agora está sufocando. Portanto, é um processo com uma trajetória, mas esse processo é muito mais complicado do que simplesmente dizer que está chegando a um ponto de inflexão, como se dissesse: “primeiro as coisas sobem, como se estivéssemos escalando uma montanha, e depois descem novamente do outro lado.”
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Na crise financeira, estamos vendo que, por um lado, o Estado desempenha um papel como agente financeiro, assume dívidas, cria dinheiro e crédito por meio do banco central e também desempenha o papel de regulador. Ele está conectado a esses desenvolvimentos em vários níveis. No momento, também é decisivo que as entidades estatais até agora não tenham sido capazes de implementar aquilo que seria necessário para o capital no longo prazo, a fim de assegurar sua valorização.
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Para garantir isso, o Estado teria que assegurar uma desvalorização regulada de todos esses diferentes direitos financeiros. Surge a questão de que forma essa desvalorização assumirá: uma forma completamente desregulada e caótica, que deixaria em seu rastro muitos colapsos carregados de crise, substancialmente mais poderosos do que aqueles aos quais nos acostumamos nos últimos anos; ou uma forma caracterizada pela competição, significando que alguns países teriam que suportar quase todo o peso, enquanto outros quase nenhum; ou mesmo uma forma cooperativa, na qual até a Alemanha reconheceria que não se pode arruinar mercados de venda se a Alemanha deseja permanecer a líder global em exportações ou a segunda maior líder em exportações. A forma pela qual essa desvalorização ocorrerá é incerta, mas ela não diz respeito meramente a questões de competição. Estamos lidando com um gargalo de grande alcance do sistema político, tanto na UE quanto nos EUA.
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Ebermann: É bastante hilário quantas pessoas estão culpando os bancos. Isso permite inferir que, não importa o que aconteça, o Estado mantém seu caráter sagrado. E as pessoas, quando respondem a perguntas de pesquisas ou até mesmo fazem manifestações, expressam o medo de que o Estado esteja perdendo sua soberania para o setor financeiro. O Estado que organizou tudo dessa maneira é o Estado que temos agora. O Estado é aparentemente a única entidade que não está sendo submetida à crítica. Em vez disso, o que leio em cada linha de protesto é que esse Estado está sendo pressionado pelos mercados financeiros.
Vamos dar uma olhada na competição no mercado global e supor que exista uma produtividade aproximadamente igual em todo o mercado. Isso significa, suponhamos, que os atores no mercado mundial tenham infraestrutura igualmente boa, tempos de funcionamento das máquinas igualmente longos, mão de obra igualmente qualificada, uma composição orgânica do capital relativamente vantajosa e assim por diante. Supondo tudo isso, será decisivo qual ator consegue cortar os benefícios sociais dos não produtivos, assim como qual ator consegue manter os salários baixos. Tudo isso já ficou para trás, sem que o processo tenha sido concluído. Algo que caracterizou a consciência de gerações inteiras agora acabou: a ideia de que a vitória no mercado mundial, apesar de toda a abstinência necessária para alcançá-la, leva a possibilidades crescentes de consumo.
Esse era o núcleo do “Modell Deutschland”. Isso também explica o terrível desejo pelo retorno da época em que ríamos dos italianos porque eles tinham tantas greves que isso destruía sua economia, enquanto nossa diligência era recompensada com maiores possibilidades de consumo. Essa aposta já não é válida. As pessoas sabem que, no que diz respeito às cotas de exportação, vivem em uma nação vitoriosa, enquanto, ao mesmo tempo, suas possibilidades de consumo estão diminuindo e elas esperam a pobreza na velhice, muito além do que atualmente é discutido como uma crise das finanças estatais.
As pessoas tentaram dar sentido a isso, e sua resposta completamente errada é: nossos protestos não deveriam ser dirigidos contra aqueles que fizeram isso conosco enquanto sujeito poderoso, enquanto Estado, mas sim nosso inimigo está na esfera financeira. Essa é a posição de partida que se enfrenta politicamente, e que é assustadora por razões plausíveis. Esse é o núcleo de um possível protesto reacionário, independentemente de quão inofensivos ou sem rumo eles ainda estejam perambulando por Frankfurt
[…]
Vogl: Você certamente tem razão em dizer que toda chamada crise tem uma leve tendência a imprimir nas coisas um selo maniqueísta: aqui o bom Estado, ali os maus mercados financeiros. O que acompanha isso é um ato de desconhecimento, que não vê a grande contribuição dos Estados-nação para o estabelecimento desse sistema. Não é o caso, especialmente na Alemanha, de que, ao lado de todos os outros problemas, tenhamos essencialmente uma crise de governo? Está ocorrendo um colapso conceitual peculiar. Não está claro como, onde e segundo quais princípios e mecanismos os processos de tomada de decisão estão efetivamente funcionando.
Ebermann: Bem, aquilo que está oculto por trás do termo “crise de governo”, que me faz sorrir, eu definiria como um problema do caráter autoritário. O caráter autoritário gostaria que a esfera política fizesse anúncios claros e depois os implementasse. Agora estamos em uma situação na qual até mesmo a pessoa que não presta exatamente atenção sabe que simplesmente não é assim no momento. Um exemplo divertido: alguns meses atrás, a primeira parte do noticiário noturno era: teste de estresse dos bancos. Quase todos passaram no teste de estresse. Tudo o que era relevante foi simplesmente excluído.
Vogl: Acima de tudo, suas participações em títulos governamentais foram excluídas.
Ebermann: Sim. Depois houve umas 30 mesas-redondas televisivas destinadas a tranquilizar, com cerca de 100 especialistas, todos satisfeitos com os testes de estresse. Lendário: a mesa-redonda da Phoenix [nota do tradutor: Phoenix é um canal de televisão público operado conjuntamente pelas emissoras públicas ZDF e ARD]. Até mesmo um leitor do jornal diário que não é muito interessado em política percebe: uma afirmação é levantada e depois precisa ser abandonada. Um ano atrás, Merkel ainda dizia: nenhuma ajuda para ninguém. Essa era a Madame Não. A posição é insustentável e precisa ser abandonada. E tudo isso deixa o caráter autoritário nervoso. Ele quer anúncios claros e é torturado pelo medo de que exista algum tipo de benevolência excessiva em relação a países estrangeiros.
Como seria alegre se as manifestações que existem agora gritassem: “Vamos finalmente dar aos gregos algumas centenas de bilhões!” Ou: “Parem de perseguir os gregos!” Em vez disso, o caráter autoritário pensa que a Alemanha está sendo perseguida pelos mercados financeiros. Isso é insano. Eu não teria nada contra uma bela crise de governo. Isso implicaria o desejo pela abolição da dominação.
Kurz: Se alguém presume que haverá novamente vencedores e perdedores, então já pressupôs uma precondição: a acumulação de capital, como diz Georg Fülberth, tem 500 anos pela frente.
Ebermann: Essa também é a minha perspectiva.
[…]
Kurz: Poder-se-ia perguntar: quem será a próxima potência mundial depois dos EUA, quem decidirá a batalha sobre qual será a moeda global? Mas se alguém presume que estamos lidando com uma crise sistêmica em um sentido mais profundo, uma crise da socialização negativa enquanto tal, então essas questões, tal como formuladas, estão fundamentalmente erradas. Porque pode ser que não haja vencedor, mas sim um processo de repetidos retrocessos para o processo real de reprodução.
E nesse processo, a ideologia pós-modernista desempenha um papel importante. Vogl abordou isso. Poder-se-ia dizer ironicamente: meu capital se acumula sem valor e sem trabalho. A ideologia pós-modernista, que celebra sua marcha triunfal nos campos dos estudos literários e culturais e que, não por acaso, entrou em cena no curso da revolução neoliberal, no curso do desacoplamento da superestrutura financeira, no curso do endividamento da economia mundial em novas dimensões, comporta-se de maneira afirmativa em relação aos fenômenos da crise. Ela pressupõe que o capitalismo nunca alcançará seus limites, mas sempre descobrirá novos horizontes nos quais as antigas leis já não são válidas. Isso também foi dito no campo da economia com relação à Nova Economia, até que tudo desabou. Esse tipo de pensamento alimenta a ilusão de que uma virtualização do capitalismo é sustentável. Fundamentalmente, desenvolvimentos desde 2008 desacreditaram isso.
Hoje, afirma-se que existe uma grande crise estrutural, a crise de um modelo de acumulação, mas da qual um novo modelo se desenvolverá. Mas a precondição para isso seria que, em uma nova escala, trabalho real, o uso da força de trabalho, fosse absorvido. É duvidoso que novos setores como a biotecnologia ou a microeletrônica estejam em condições de absorver substancialmente trabalho abstrato em grande escala. Minha tese é que o uso abstrato da força de trabalho, que o processo de valorização requer para sua reprodução, não ocorrerá no nível necessário. Além disso, grande parte dos processos de trabalho que foram gerados baseia-se em uma valorização antecipada. Os fluxos deficitários entre a China e os EUA, mas também dentro da Europa, mostram que o uso real do trabalho abstrato na escala necessária já não existe.
Assim, pode-se colocar a questão: como estão as coisas com os vários participantes no mercado mundial? A China não transcendeu a crise; levantou uma ruína de investimentos após outra. Construíram cidades-fantasma inteiras. Tudo isso pressupõe que o fluxo deficitário do Pacífico continuará em uma escala ampliada. Mas, nos EUA, já não existe o potencial para absorver tudo isso no nível financeiro, e isso precisa ser absorvido ali.
Algo está acontecendo agora no nível da reprodução capitalista “normal”, em grande escala, que anteriormente só acontecia em economias de guerra: financiamento direto por meio das prensas de dinheiro. Até agora, isso não foi transformado em demanda real em grande escala; antes, apenas absorveu empréstimos ruins. Mas isso não resolve nada. Eles ainda estão lá. Se o ciclo econômico entrar em queda, então os Estados e a economia mundial não terão outra opção senão financiar a demanda real ligando as prensas. Esse é o potencial inflacionário. Na Grã-Bretanha, já há cinco por cento de inflação. Na zona do euro e nos EUA, três por cento; na China, seis por cento. Os políticos provavelmente considerarão as políticas inflacionárias o mal menor. Mas isso desvalorizaria o dinheiro, o fim em si mesmo.
Gremliza: Então ou o grande estouro, ou mais 500 anos?
Heinrich: Talvez uma mistura dos dois. Vou tentar deixar clara a principal diferença entre mim e Robert Kurz. Acho que você está orientado demais para o fordismo e para o capitalismo do milagre econômico do pós-guerra. E você diz corretamente que não há ponto de partida para algo assim ocorrer novamente no futuro próximo — algo ao longo das linhas de: “temos uma crise estrutural, mas em breve tudo voltará a decolar, como nos anos 50 e 60”. Concordo com você até esse ponto.
Mas então você tira a conclusão: se não há possibilidade de algo assim ocorrer, então o capitalismo está prestes a entrar em colapso. Mas o fordismo e o “milagre econômico” dos anos cinquenta e sessenta não foram o auge do capitalismo, mas sim uma situação historicamente excepcional, cujas precondições econômicas e políticas podem ser precisamente determinadas. A acumulação continuará avançando, ainda que de maneira irregular. Mesmo que todos esses direitos financeiros sejam desvalorizados, isso não destrói uma única fábrica. Talvez esta ou aquela empresa vá à falência, mas então será comprada barato por um concorrente e continuará produzindo. Com relação ao seu argumento de que processos de produção são colocados em movimento que devem sua existência a fluxos deficitários, só posso dizer: e daí? Então algum credor irá à falência. Isso não significa que tudo entrará em colapso.
Kurz: Bem, as próprias empresas produtivas irão à falência.
Heinrich: Mas o que significa dizer que irão à falência? Ou serão compradas barato por outros, ou a superprodução será encerrada, e isso significa maior rentabilidade para as empresas restantes, mais lucro. O emprego, o número de trabalhadores assalariados, continua a crescer globalmente. Não há indicação de que o capitalismo esteja chegando ao fim; muito pelo contrário.
[…]
Ebermann: […] em geral, existe um anseio no mundo, particularmente servido pelo campo da esquerda parlamentar: só pode haver uma crise porque alguém cometeu um erro. Essa é a grande manchete. Temos que encontrar aqueles que cometeram o erro…
Kurz: … ou que agiram de maneira moralmente questionável…
Ebermann: … ou que são gananciosos. Essa busca por comportamentos gananciosos e falhos ainda forma a consciência das poucas pessoas que saem às ruas para protestar. É importante ter uma ideia de quão propenso à crise é o capitalismo, sem que as pessoas cometam erros. Na Bundesliga, todos os anos duas equipes são rebaixadas para a segunda divisão. Isso é inexorável. Mesmo que todos façam tudo corretamente, duas equipes são rebaixadas.
[…]
Uma dimensão sobre a qual ainda não falamos: não posso prever quais guerras aguardam a humanidade. A última reserva dos EUA, se as coisas ficarem consideravelmente piores para eles do que para os europeus, é um poder militar absurdamente superior. Todas as imagens antigas, de extinção por guerra nuclear e coisas do gênero, não consigo tirá-las da cabeça. Também não posso apresentá-las aqui como previsões de maneira argumentativa.
Mas posso dizer o seguinte: se tudo continuar no mesmo caminho, daqui a dez anos teremos na Alemanha um nível até então desconhecido de pobreza entre os idosos. Na minha idade, já não consigo alcançar uma aposentadoria que estivesse no mesmo nível dos benefícios do Hartz IV. Muitas pessoas viveram assim. E a geração que tem 15 ou 20 anos a menos que eu está sob uma pressão ainda maior. Mesmo sem uma intensificação da crise e mesmo sem um colapso, tais catástrofes nos aguardam. Quando uma desvalorização das pequenas economias for acrescentada a isso, isso levará a uma pobreza catastrófica.
O que a superioridade produtiva alemã está causando na Europa Oriental e Sudeste, e a que fenômenos insanos isso leva, está diante de nossos olhos no momento. Mas observar essa loucura na Hungria, ou essa caça aos Sinti e Roma na Bulgária e na Romênia, leva-me a afirmar, mesmo que não se goste de fazer previsões: não consigo imaginar que, em um futuro próximo, os Estados da comunidade europeia continuem sendo democracias parlamentares segundo nossos critérios atuais. Simplesmente não consigo imaginar isso. Embora esse seja todo o ideal da UE.
[…]
Heinrich: […] Eu também diria que o desenvolvimento capitalista nos próximos anos continuará sendo profundamente marcado por crises. Estaremos lidando com um capitalismo que só pode manter suas promessas de consumo para grupos relativamente pequenos da população. A maioria pode reagir a isso de maneira progressista ou reacionária. Tempos muito desagradáveis nos aguardam, tanto econômica quanto politicamente. Mas a máquina capitalista continuará funcionando.
Kurz: Eu não disse que o colapso é algo que se pode assistir na televisão e que acaba no dia seguinte. E então ou acordamos em um mundo libertado ou em um deserto devastado. É um processo histórico, não uma ocorrência única. […] Mas e quanto à acumulação de capital? Ela alcançou certo nível histórico e não pode cair abaixo desse nível.
Heinrich: A acumulação de capital ocorre, mas as promessas de consumo feitas pelo capitalismo nos centros capitalistas só são realizáveis para uma minoria. As duas coisas andam juntas. O capitalismo não nos concederá mais aquilo que nossos pais ainda esperavam.
Kurz: Mas a acumulação de capital há muito depende do consumo de massa. O fordismo não foi uma exceção, mas sim uma etapa dentro de sua trajetória de desenvolvimento. Ele foi necessário para realmente eliminar a crise econômica. Agora, se outro nível não for alcançado com base nesse nível já atingido de acumulação de capital fordista, então a própria acumulação entrará em colapso. Não é o caso de que a acumulação de capital possa ocorrer em qualquer nível arbitrário. Então também se poderia dizer que, eventualmente, a acumulação de capital ocorre apenas nas Ilhas Cayman, e ainda assim o capitalismo está em boa forma.
Heinrich: Mas ninguém diz isso, e não é o caso. Hoje temos mais trabalhadores assalariados do que jamais houve na história do capitalismo. Simplesmente não se pode dizer que o capitalismo esteja limitado às Ilhas Cayman, de forma alguma.
Kurz: Meu ponto era o nível histórico da acumulação, e ele não pode ficar abaixo daquele do fordismo, mas precisa ir além dele, se um novo modelo de acumulação vier a surgir. E, de qualquer modo, como estão as coisas com essas enormes massas de trabalhadores assalariados? Por um lado, em nível global, houve uma mudança nos métodos estatísticos: em todos os países centrais, mas também na periferia, trabalhadores não produtivos — por exemplo, empacotadores de supermercado — estão incluídos. Se alguém quiser contabilizar as massas adicionais de trabalhadores assalariados, precisa levar essas mudanças em consideração.
Heinrich: As coisas não são tão diferentes, uma vez que a base industrial também está se expandindo, não se contraindo.
Kurz: Mas sobre qual fundamento? E aqui voltamos aos fluxos deficitários: sobre qual fundamento ocorreu o crescimento econômico chinês? Unicamente com base no fluxo deficitário do Pacífico; sem isso, não teria havido industrialização da China. Isso significa que ela tem pés de barro.
Heinrich: Mas esse é sempre o caso. Na verdade, é sempre a mesma velha história. Como as ferrovias foram construídas no século XIX? Com base em um enorme golpe de crédito e do mercado acionário. Com sua argumentação, o colapso do capitalismo já teria que ter ocorrido no final do século XIX, uma vez que enormes projetos de infraestrutura só surgiram com base em fluxos deficitários. Ocorreram processos imensos de redistribuição. Pequenos poupadores perderam suas economias porque compraram ações ferroviárias no momento errado. Portanto, houve perdas enormes, mas, em última análise, o capitalismo foi impulsionado pelos fluxos deficitários do século XIX. Parece-me que algo muito semelhante está acontecendo agora na China.
Fim.
ATENÇÃO:
Texto retirado de: Reification of Person and Personification of Things (‘Heinrich and Kurz Debate’), publicado em 10 de agosto de 2015 | Traduzido ao inglês por Negpot | Conteúdo originalmente disponível no já extinto ‘Principia Dialectica’, como descrito pela fonte.
Traduzido ao português com IA
