
A menos de um mês das eleições, o cenário é de extrema polarização. De um lado, o presidente Lula, em busca da reeleição, com um governo frágil e inoperante diante dos problemas que queria administrar. De outro, o senador Flávio Bolsonaro, que já admitiu ter recebido pelo menos 12 milhões de dólares de Vorcaro para patrocinar um filme – e que conta com o apoio explícito do imperialismo estadunidense, como revelou a carta de Marco Rubio, agradecendo ao candidato por sua “generosa oferta de colocar uma equipe de transição à disposição” do governo Trump.
Como observou Paulo Nogueira Batista Jr., a eleição de 2026 “representa um risco existencial para o Brasil, particularmente por sua dimensão internacional”. A transformação da Venezuela em protetorado dos Estados Unidos, após o sequestro de seu presidente, escancarou que o imperialismo estadunidense entrou em “nova fase, de muita agressividade”; assim, “Eleger um candidato entreguista é um risco enorme”.
O problema é que a reedição da “frente democrática” de 2022 como estratégia para 2026 enfrenta dificuldades substantivas. Como argumenta Carlos Pereira, “o contexto que viabilizou aquela aliança não existe mais”. A coalizão de 2022 foi “uma resposta excepcional a uma percepção de risco excepcional”, e não um novo arranjo programático. Isso tem consequências visíveis, a começar pelo modo “defensivo” de governar o trem descarrilhado que é a Constituição de 1988.
O governo Lula 3, na avaliação de muitos, frustrou aqueles setores que, “sem serem de esquerda, decidiram apoiá-lo em 2022”. A aposta na via institucional como caminho para a transformação social converteu a esquerda em gestora do capital, administradora da crise – reconhecendo, nas palavras de Chasin, “a reconversão administrada da crise em meio de existência” (Chasin, 2000). Tanto é que, no fatídico “08 de janeiro” de 2023, o golpismo deu as caras em sua tentativa frustrada. Isso mostra, sem dúvidas, que o poder bolsonarista, como gangues políticas situadas em diversos setores da sociedade, não diminuiu sua influência da arena pública; ela está cada vez mais enraizada e forte, como se vê agora na figura acéfala de Flávio Bolsonaro.
Como consequência direta, a dificuldade em realizar uma produção política radical, isto é, enterrar os mortos e perder as ilusões do passado permite que a extrema-direita ocupe o espaço vazio com força e organicidade social. O fascismo dos anos 1930 foi uma resposta ao avanço revolucionário do socialismo. Hoje, porém, a situação é muito diferente: não há o triunfo da esquerda, mas sua derrota. O caminho é, sem dúvidas, ainda mais doloroso.
O avanço da extrema-direita não é resposta a vitórias, mas ataque direto ao que resta de civilizatório na moribunda democracia; diante de uma classe trabalhadora desorganizada e atomizada, refém da tragédia cotidiana que está vigente no Brasil de 2026. O pragmatismo que corresponde a crise institucional, o golpismo continuado, a ofensiva imperialista e a atomização da classe trabalhadora são sintomas de uma época em que a esquerda vaga como cadáver insepulto.
A esquerda aposta exclusivamente no voto, como se isso fosse um pressuposto de legitimação social; pois, ao acreditar que a vitória nas urnas resolverá a crise institucional, estará fadada à derrota – mesmo que vença. Porque o poder real não se decide na urna, mas na disputa cotidiana pelas instituições, pela narrativa e pela capacidade de impor um programa objetivo. Isso apenas é possível quando os trabalhadores tomam para si a força conjunta como classe.
O dilema que está colocado realmente é ainda maior: recuperar esses territórios políticos exige inteligência e uma ampla organização anti-reacionária. É claro, assim, que a crise democrática e o golpismo institucional não se restringem ao jogo de poder entre os poderes constituídos; eles são amplificados e ganham uma nova dimensão com o controle exercido pelas big techs sobre a infraestrutura informacional. As eleições de 2026 serão as mais digitalmente vulneráveis, pois a ameaça central não é mais apenas o discurso político, mas o controle algorítmico que define o que os eleitores veem ou deixam de ver.
Nesse contexto, a “luta pelo voto” se trava em um campo minado por algoritmos de amplificação de desinformação e pela atuação coordenada de Washington e das plataformas para enfraquecer a soberania digital brasileira, como demonstrado pela pressão contra o PL 4.675/2025, que travou a regulação do Cade sobre os mercados digitais. As big techs não são meras intermediárias neutras, mas agentes políticos globais que, sob a influência do governo Trump, adotaram posturas mais agressivas, priorizando interesses econômicos e alinhando-se a agendas de extrema-direita para desestabilizar governos minimamente estáveis.
A resistência das plataformas, como a redução de medidas contra a desinformação e o lobby intenso no Congresso, revela uma estratégia clara de obstrução à regulamentação. Apenas em 2024, as big techs gastaram US$ 61 milhões em lobby nos EUA. O resultado é um cenário em que o voto, embora crucial, torna-se refém de um ecossistema informacional controlado por empresas que lucram com o engajamento, independentemente do dano democrático. Perder as ilusões sobre essa disputa, reconhecendo que a eleição não se vence apenas no voto, exige compreender que a batalha se dá também pela capacidade de resistir à colonização digital da política e construir alternativas de comunicação soberanas
O Brasil de 2026 está diante de uma encruzilhada, mais que 2022, eu diria; a “crise” no STF é uma briga diante da administração das oligarquias entreguistas do país. A eleição não será decidida no voto, mas na capacidade de resistir ao golpismo, rearticular as instituições, com intuito de combater o real crime organizado – a direita e o bolsonarismo – e construir, no limite do possível, uma alternativa real ao capitalismo em crise. Essa é a verdade que a esquerda precisa encarar: a pseudociência do Direito é, na verdade, o jogo de coordenação do poder que é da ordem do capitalismo.
– Wesley Sousa
Referências
BATISTA JR., Paulo Nogueira. Risco existencial. CartaCapital, 8 jan. 2026. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/opiniao/risco-existencial/. Acesso em: 8 de setembro de 2026.
BBC NEWS BRASIL. Crise entre Moraes e Mendonça põe legitimidade do STF em risco em meio a eleição acirrada, diz cientista política. BBC News Brasil, 6 set. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cx2zyek2wqwo. Acesso em: 8 de setembro de 2026.
CHASIN, José. A miséria brasileira. Santo André: Ad Hominem Livros, 2000.
GENRO, Tarso. O Congresso e o “golpe continuado”, em parceria com o crime organizado. Diário do Centro do Mundo, 9 dez. 2025. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-congresso-e-o-golpe-continuado-em-parceria-com-o-crime-organizado-por-tarso-genro/. Acesso em: 8 de setembro de 2026.
PEREIRA, Carlos. Contexto que viabilizou a ‘frente ampla’ não existe mais. Estado de S. Paulo, 15 jan. 2026. Disponível em: https://gilvanmelo.blogspot.com/2026/01/contexto-que-viabilizou-frente-ampla.html. Acesso em: 8 de setembro de 2026.
