
O terreno que quero percorrer hoje é amplo. Ele se estende desde o nível mais fundamental da teoria do valor (ou, mais precisamente, da crítica do valor) — isto é, desde o nível das categorias fundamentais da sociedade produtora de mercadorias: trabalho, valor, mercadoria, dinheiro — até o nível em que essas categorias fundamentais aparecem reificadas e fetichizadas, como fatos aparentemente “naturais” da vida e como “necessidades objetivas”. Nesse nível — o do preço, lucro, salário, circulação e assim por diante — emergem as contradições internas da moderna sociedade produtora de mercadorias: aqui se torna evidente a insustentabilidade histórica última de tal sociedade — sob a forma da crise. É claro que, no tempo limitado de que disponho hoje, só posso esboçar essas questões, mas espero conseguir oferecer uma visão clara da estrutura essencial.
Como ponto de partida, gostaria de começar com uma categoria comumente vista como uma condição inteiramente autoevidente da existência humana: o “trabalho”. Mesmo n’O Capital de Marx, ele permanece em grande medida não problematizado e é tomado como uma característica antropológica universalmente válida, que pode ser encontrada em todas as sociedades do mundo: “O trabalho, portanto, enquanto criador de valores de uso, enquanto trabalho útil, é uma condição de existência do homem, independente de todas as formas sociais; é uma necessidade natural eterna que medeia o metabolismo entre homem e natureza e, portanto, a própria vida humana.”[1]
É verdade que, para Marx, a categoria de “trabalho” não é tão completamente não problemática quanto essa citação parece sugerir. Em outros momentos, especialmente nos chamados escritos de juventude, ele adota tons muito mais críticos. Numa crítica ao economista alemão Friedrich List, publicada pela primeira vez na década de 1970, chega a falar da abolição do trabalho como condição prévia da emancipação. “‘Trabalho’ é, em seu próprio ser, uma atividade opressiva, desumana e antissocial, que tanto é determinada pela propriedade privada quanto a produz. A abolição da propriedade privada, portanto, só se torna realidade quando é compreendida como uma abolição do ‘trabalho’.”[2] Mesmo n’O Capital, encontramos passagens que lembram essa abordagem inicial. Mas minha tarefa aqui não é rastrear as ambivalências em torno do conceito de “trabalho” (para mais sobre isso, ver Kurz); antes, gostaria de avançar diretamente para a questão do significado dessa categoria.[3] O “trabalho” é uma constante antropológica? Podemos utilizá-lo como tal para transformá-lo, sem maiores problemas, em ponto de partida para uma análise da sociedade produtora de mercadorias? Minha resposta é um “não” inequívoco.
Marx distingue entre trabalho abstrato e concreto e chama isso de caráter duplo do trabalho próprio da sociedade produtora de mercadorias. Com isso, sugere — e também afirma explicitamente — que é somente no nível desse desdobramento, ou cisão, que ocorre um processo de abstração. O trabalho abstrato é abstrato na medida em que se afasta das propriedades materiais concretas e das particularidades das respectivas atividades específicas — por exemplo, o trabalho de um alfaiate, de um carpinteiro ou de um açougueiro — e é reduzido a um equivalente comum. Mas Marx deixa passar aqui (e, de qualquer modo, o marxismo ainda não desenvolveu uma consciência do problema nesse nível) que o trabalho enquanto tal já é uma abstração desse tipo. E não simplesmente uma abstração no pensamento, como uma árvore, um animal ou uma planta; trata-se, antes, de uma abstração historicamente estabelecida, socialmente poderosa e realmente existente, que submete violentamente as pessoas ao seu domínio.
Abstrair significa retirar ou afastar-se de algo. De que maneira, então, o trabalho é um afastamento — isto é, um afastamento de alguma outra coisa? O que é social e historicamente específico no trabalho não é, evidentemente, o fato de que coisas sejam produzidas em primeiro lugar e de que tarefas sociais sejam realizadas. Na verdade, isso deve ocorrer em todas as sociedades. O específico é a forma como isso acontece na sociedade capitalista. O essencial dessa forma é, em primeiro lugar, o fato de que o trabalho constitui uma esfera separada, cortada do restante de seu contexto social. Quem trabalha está trabalhando e não fazendo outra coisa. Relaxar, divertir-se, perseguir interesses pessoais, amar e assim por diante — essas coisas devem ocorrer fora do trabalho ou, pelo menos, não devem interferir em suas rotinas funcionais completamente racionalizadas. É claro que isso nunca é plenamente bem-sucedido, porque, apesar de séculos de treinamento, não foi possível transformar as pessoas completamente em máquinas. Mas estou falando aqui de um princípio estrutural que empiricamente nunca surge em pureza perfeita — embora, pelo menos na Europa Central, o processo empírico do trabalho certamente pareça corresponder em grande medida a esse modelo terrível. Por essa razão — isto é, como resultado da exclusão de todos os momentos de não trabalho da esfera do trabalho — o estabelecimento histórico do trabalho é acompanhado pela formação de outras esferas separadas da sociedade, para as quais são banidos todos aqueles momentos dissociados (abgespaltenen), esferas que, por sua vez, assumem um caráter exclusivo: lazer, vida privada, cultura, política, religião e assim por diante.
A condição estrutural essencial para essa divisão da vida social é a relação moderna entre os sexos, com sua distribuição dicotômica e hierárquica da masculinidade e da feminilidade. A esfera do trabalho recai inequivocamente no âmbito do “masculino”, o que por si só já demonstra as exigências subjetivas que isso implica: racionalidade abstrata e instrumental, objetividade, pensamento formal, orientação competitiva — exigências que as mulheres, naturalmente, também devem atender se quiserem chegar a algum lugar no mundo do trabalho. Entretanto, esse âmbito do masculino só é estruturalmente capaz de existir contra o pano de fundo daquilo que foi dissociado, uma esfera que então é posta como inferior — uma esfera na qual, idealmente, o homem trabalhador pode se regenerar, porque, no caso ideal, a dedicada dona de casa cuida de seu bem-estar físico e emocional. Essa relação estrutural, que a sociedade burguesa idealizou e romantizou desde tempos imemoriais em incontáveis elogios bombásticos à esposa e mãe amorosa e abnegada, foi analisada mais do que adequadamente, nos últimos trinta anos, pela produção teórica feminista. Nesse sentido, é possível avançar, sem maiores comentários, a tese de que o trabalho e o moderno sistema de relações hierárquicas entre os gêneros estão inseparavelmente ligados um ao outro. Ambos são princípios estruturais fundamentais da ordem social burguesa da forma-mercadoria.
Não posso prosseguir aqui com essa relação em si mesma, pois o tema da minha conferência são, na verdade, as mediações específicas e as contradições internas no interior das esferas do trabalho, da mercadoria e do valor, historicamente e estruturalmente masculinas. Gostaria, portanto, de retornar a essa questão. Observei anteriormente que o trabalho, enquanto forma específica de atividade na sociedade produtora de mercadorias, já é, em si, abstrato porque constitui uma esfera separada, retirada do restante da vida social. E, como tal, ele só existe onde a produção de mercadorias já se tornou a forma determinante de socialização — no capitalismo, isto é, onde a atividade humana, na forma de trabalho, não serve a nenhum outro propósito senão à valorização do valor.
Os seres humanos não entram voluntariamente na esfera do trabalho. Eles o fazem porque foram separados dos meios mais básicos de produção e existência por um longo e sangrento processo histórico e agora só podem sobreviver vendendo-se temporariamente — ou, mais precisamente, vendendo sua energia vital, como força de trabalho, para uma finalidade externa, cujo conteúdo é irrelevante. Para eles, portanto, o trabalho significa primordialmente uma extração fundamental de energia vital e, nesse sentido, é uma abstração extremamente real, efetivamente existente. De fato, é precisamente por essa razão que a identificação do trabalho com o sofrimento faz sentido, como sugere o significado original da palavra laborare.
No fim das contas, porém, a abstração no âmbito do trabalho também reina sob a forma de uma regra temporal altamente específica, que é simultaneamente abstrato-linear e homogênea. O que conta é o tempo objetivamente mensurável — em outras palavras, o tempo que foi separado das sensações, sentimentos e experiências subjetivas dos indivíduos que trabalham. O capital os alugou por um período de tempo precisamente definido, durante o qual eles têm de produzir uma quantidade máxima de mercadorias ou serviços. Cada minuto que não é despendido para esse propósito é, do ponto de vista do comprador da mercadoria força de trabalho, um desperdício. Cada minuto é valioso, na medida em que, literalmente, apresenta valor potencial.
Historicamente, o estabelecimento da regra temporal abstrato-linear e homogênea representa certamente uma das rupturas mais profundas com todas as ordens sociais pré-capitalistas. É sabido que foram necessários vários séculos de coerção evidente e uso aberto da violência antes que a massa da humanidade internalizasse essa forma de relação com o tempo e já não pensasse duas vezes antes de chegar pontualmente, em determinado horário, à porta da fábrica ou do escritório, entregar sua vida à porta da fábrica e submeter-se, durante um período precisamente mensurado, ao ritmo metronômico dos procedimentos produtivos e funcionais prescritos. Esse fato, por si só bem conhecido, mostra o quão pouco se pode tomar como dado o fato de que a forma de atividade social conhecida como “trabalho” seja natural. Se o trabalho enquanto tal, portanto, não é uma constante antropológica, mas já é ele próprio uma abstração (ainda que uma abstração que exerce enorme força social), como ele se relaciona com o caráter duplo do trabalho representado na mercadoria que Marx analisa e que constitui a base de sua teoria do valor? É sabido que Marx estabeleceu que o trabalho produtor de mercadorias possui dois lados, um concreto e outro abstrato. Enquanto trabalho concreto, ele cria valores de uso — em outras palavras, coisas úteis particulares. Enquanto trabalho abstrato, por outro lado, é o dispêndio de trabalho enquanto tal, independentemente de qualquer determinação qualitativa. Como tal, cria o valor apresentado nas mercadorias. Mas o que permanece para além de qualquer determinação qualitativa? É perfeitamente claro que a única coisa que todos esses diferentes tipos de trabalho têm em comum, abstraídos de seus elementos material-concretos, é que são diferentes tipos de dispêndio de tempo de trabalho abstrato. O trabalho abstrato é, portanto, a redução de todas as diferentes formas de trabalho produtor de mercadorias a um denominador comum. Ele as torna comparáveis e, como resultado, capazes de ser trocadas umas pelas outras, reduzindo-as à quantidade pura, abstrata e reificada do tempo transcorrido. Como tal, constitui a substância do valor.
Praticamente todos os teóricos marxistas adotaram essa concepção nada autoexplicativa ou óbvia como a definição básica de um fato antropológico e de uma lei quase natural, e a regurgitaram como tal, sem reflexão. Eles nunca compreenderam por que Marx se empenhou tanto ao escrever o primeiro capítulo d’O Capital (que, de fato, foi reescrito inúmeras vezes) e por que ele supostamente obscureceu desnecessariamente aquilo que aparentemente seria um estado de coisas tão óbvio, recorrendo a uma linguagem hegeliana. Assim como o trabalho era óbvio para o marxismo, também parecia óbvio ao marxismo que o trabalho cria valor literalmente, da mesma maneira que o padeiro assa pão, e que, no valor, o tempo de trabalho passado é preservado como tempo de trabalho morto. Mesmo em Marx nunca fica claro que o próprio trabalho abstrato, tanto lógica quanto historicamente, pressupõe o trabalho como uma forma específica de atividade social — que ele é, portanto, a abstração de uma abstração — ou, dito de outra maneira, que a redução de uma atividade a unidades homogêneas de tempo pressupõe a existência de uma medida abstrata de tempo que, como tal, domina a esfera do trabalho. Jamais teria ocorrido a um camponês medieval, por exemplo, medir em horas e minutos o tempo gasto na colheita de seus campos. Isso não se deve ao fato de que ele não possuísse um relógio; deve-se, antes, ao fato de que essa atividade se fundia com sua vida, e sua abstração temporal não teria feito sentido.
Mas, embora Marx não esclareça adequadamente a relação entre trabalho enquanto tal e trabalho abstrato, ele não deixa, ainda assim, nenhuma dúvida quanto à completa insanidade de uma sociedade na qual a atividade humana (isto é, um processo vivo) coagula-se em uma forma reificada e, como tal, estabelece-se como poder social dominante. Marx questiona ironicamente a crença comum de que isso seria um fato natural quando observa, em resposta à teoria positivista do valor da economia política clássica: “Até agora, nenhum químico descobriu valor de troca numa pérola ou num diamante.”[4] Portanto, quando Marx demonstra que o trabalho abstrato constitui a substância do valor e, assim, também determina a massa de valor por meio do tempo de trabalho despendido em média, ele de modo algum recai nas concepções fisiológicas ou naturalistas da economia clássica, como afirma Michael Heinrich em seu livro The Science of Value. Assim como a maior parte dos pensadores burgueses desde o Iluminismo, a economia clássica apreende em certa medida as relações sociais burguesas, mas apenas para declará-las, sem cerimônia, parte da ordem natural. Marx critica essa ideologização das relações sociais dominantes decifrando-as como o reflexo fetichista de uma realidade fetichizada. Ele mostra que valor e trabalho abstrato não são meras invenções da imaginação que as pessoas precisam expulsar de suas cabeças. Pelo contrário, sob as condições de um sistema de trabalho e produção moderna de mercadorias que é sempre pressuposto e que determina seus pensamentos e comportamentos, as pessoas de fato encontram seus produtos como expressões de tempo de trabalho abstrato reificado, como se esses produtos fossem uma força da natureza. Para a burguesia, suas próprias relações sociais tornaram-se uma “segunda natureza”, como Marx coloca de maneira contundente. Isso constitui o caráter fetichista do valor, da mercadoria e do trabalho.
Alfred Sohn-Rethel cunhou o termo “abstração realmente existente” para essa forma irracional de abstração. Com isso, ele se refere a um processo de abstração que não se completa na consciência humana como um ato de pensamento, mas que, como estrutura a priori da síntese social, é pressuposto e determina o pensamento e a ação humanos. Para Sohn-Rethel, contudo, essa abstração realmente existente é idêntica ao ato de troca — ela governa onde quer que mercadorias se confrontem umas com as outras no contexto do mercado. Somente aqui, segundo seu argumento, coisas diferentes são tornadas iguais, coisas qualitativamente diferentes são reduzidas a um equivalente comum: valor, ou valor de troca. Mas em que consiste esse equivalente comum? Se o valor, ou valor de troca, é o ponto em que diferentes mercadorias são reduzidas a um denominador comum como expressões de quantidades abstratas de magnitudes diferentes, também deve ser possível nomear tanto o conteúdo desse ominoso valor quanto a escala pela qual ele é medido. A resposta a isso não se encontra em Sohn-Rethel, algo que podemos atribuir em parte à sua concepção limitada, quase mecânica, do contexto da sociedade produtora de mercadorias.
Pois, pouco depois, a esfera do trabalho aparece como um espaço pré-social no qual produtores privados criam seus produtos, ainda intocados de qualquer maneira por qualquer forma social determinada. Só depois eles lançam esses produtos como mercadorias na esfera da circulação, onde, no ato da troca, eles são abstraídos de suas particularidades materiais (e, portanto, indiretamente, do trabalho concreto despendido em sua produção) e assim se transformam em portadores de valor. Essa percepção, contudo, que dilacera a esfera da produção e a esfera da circulação, separando-as uma da outra e colocando-as em oposição superficial, perde completamente o contexto interno do moderno sistema produtor de mercadorias. Sohn-Rethel confunde sistematicamente dois níveis de observação: primeiro, a sucessão temporal necessária entre a produção e a venda de uma única mercadoria; e, segundo, a unidade social lógica e real dos processos de valorização e troca, uma unidade que esses processos sempre pressupõem.
Gostaria agora de explorar esse ponto de vista de maneira mais extensa, porque ele não pode ser atribuído apenas a Sohn-Rethel; ao contrário, é amplamente difundido e pode ser encontrado em muitas variantes. Isso inclui, por exemplo, o livro anteriormente mencionado de Michael Heinrich, no qual ele aparece a cada passo. Heinrich afirma (para selecionar apenas uma entre muitas citações) que os corpos das mercadorias obtêm “sua objetividade de valor somente dentro do processo de troca” e então prossegue da seguinte maneira: “Isolado, considerado por si mesmo, o corpo da mercadoria não é uma mercadoria, mas apenas um produto.”[5] É verdade que Heinrich não extrai dessas e de muitas outras afirmações semelhantes as mesmas conclusões teóricas que Sohn-Rethel, mas elas certamente estão contidas na lógica de sua própria argumentação. É somente com a ajuda de um conjunto de recursos teóricos pouco convincentes (separando a forma do valor e a substância do valor uma da outra) que ele consegue evitá-las (ver a crítica de Heinrich e de Backhaus e Reichelt).[6]
É evidente que, no modo de produção capitalista, não é o caso de que produtos sejam inocentemente criados e só posteriormente cheguem ao mercado; ao contrário, todo processo de produção está, desde o início, orientado para a valorização do capital e organizado de acordo com isso. Isto é, a produção já ocorre no contexto de uma forma fetichizada de valor, e os produtos devem cumprir um único propósito: representar, na forma de valor, a quantidade de tempo de trabalho necessária para sua produção. Assim, a esfera da circulação, o mercado, não serve à troca de mercadorias; é antes o lugar onde o valor representado nos produtos é realizado — ou, pelo menos, onde se supõe que ele seja realizado. Para que isso seja possível (uma condição necessária, mas não suficiente), as mercadorias também devem, como é sabido, ser coisas úteis, ainda que apenas para o potencial comprador. O aspecto concreto e material da mercadoria, seu valor de uso, não é o objetivo nem a finalidade da produção, mas apenas um efeito colateral mais ou menos inevitável. Do ponto de vista da valorização, isso poderia certamente (e com prazer) ser dispensado (e, em certo sentido, isso de fato ocorre na produção em massa de coisas completamente inúteis ou que se desfazem depois de pouquíssimo tempo), mas o valor não pode prescindir de um suporte material. Pois ninguém compra tempo de trabalho morto enquanto tal, mas apenas quando ele está representado em um objeto ao qual o comprador atribui algum tipo de utilidade.
O aspecto concreto do trabalho, portanto, de modo algum permanece intocado pela forma pressuposta de socialização. Se o trabalho abstrato é a abstração de uma abstração, o trabalho concreto representa apenas o paradoxo do aspecto concreto de uma abstração — a saber, da abstração-forma “trabalho”. Ele só é “concreto” no sentido muito estreito e restrito de que diferentes mercadorias exigem processos de produção materialmente diferentes: um carro é produzido de maneira diferente de, digamos, um comprimido de aspirina ou um apontador de lápis. Mas até mesmo o comportamento desses processos de produção não é, de maneira alguma, indiferente, técnica ou organizacionalmente, ao objetivo pressuposto da valorização. Dificilmente preciso me estender muito sobre como o processo capitalista de produção é configurado nesse aspecto: ele é organizado exclusivamente segundo a máxima de produzir o maior número possível de produtos no menor tempo possível. Isso é então chamado de eficiência econômica de uma empresa. O lado concreto e material do trabalho, portanto, não é outra coisa senão a forma tangível na qual o ditame temporal do trabalho abstrato confronta os trabalhadores e os força a seguir seu ritmo.
Nesse sentido, também é totalmente correto afirmar que as mercadorias produzidas no sistema do trabalho abstrato já incorporam valor, mesmo que não tenham entrado na esfera da circulação. O fato de que a realização do valor possa fracassar — as mercadorias podem ser invendáveis ou só podem ser descartadas por um preço muito abaixo de seu valor — está de acordo com a lógica da questão, mas pertence a um nível totalmente diferente do problema. Pois, para entrar na esfera da circulação, um produto já deve estar na forma fetichizada de um objeto de valor — e, uma vez que esse objeto, como tal, não é outra coisa senão a representação de trabalho abstrato passado (e isso sempre significa também a representação de tempo de trabalho abstrato passado), ele necessariamente já possui uma determinada magnitude de valor. Pois, como forma pura sem substância (isto é, sem trabalho abstrato), o valor não pode existir sem entrar em um estado de crise no qual acabará por desmoronar.
Mas, como é sabido, a magnitude do valor de uma mercadoria não é determinada pelo tempo de trabalho imediatamente despendido em sua produção, mas pelo tempo médio de trabalho socialmente necessário. Essa média, por sua vez, não é uma magnitude fixa, mas muda de acordo com o nível atual de produtividade (isto é, existe uma tendência secular de queda do tempo de trabalho necessário por mercadoria e, portanto, da quantidade de valor que ela representa). Mas, como medida do valor, essa média já é sempre pressuposta por todo processo individual de produção e assume poder nesse processo como um soberano impiedoso. Um produto, portanto, representa uma determinada quantidade de tempo de trabalho abstrato apenas na medida em que pode se submeter ao julgamento da massa social da produtividade. Se o trabalho de uma empresa é improdutivo, seus produtos, evidentemente, não representam mais valor do que aqueles produzidos sob condições socialmente médias. A empresa deve, portanto, melhorar sua produtividade no longo prazo ou desaparecer completamente do mercado.
Nesse contexto, é um tanto confuso que a objetividade e a magnitude do valor não apareçam na mercadoria individual, mas apenas na troca de mercadorias — isto é, somente quando elas entram em relação direta com outros produtos do trabalho abstrato. O valor de uma mercadoria torna-se então visível na outra mercadoria. Assim, por exemplo, o valor de uma dúzia de ovos pode ser expresso em quatro libras de farinha. Na produção desenvolvida de mercadorias (e é isso que está sempre em jogo nesta discussão), o lugar dessa outra mercadoria é ocupado por um equivalente geral: o dinheiro, no qual o valor de todas as mercadorias é expresso e que funciona como medida social do valor. Afirmar, então, que o valor, na forma de valor de troca, só aparece no nível da circulação já pressupõe a compreensão de que ele não surge da maneira que Sohn-Rethel e outros teóricos da troca (sem mencionar todos os representantes da teoria subjetiva do valor) afirmam — a compreensão, em outras palavras, de que existe uma diferença entre a essência do valor e suas formas de manifestação.
A teoria subjetiva do valor, que, em seu empirismo rasteiro, deixa-se enganar pela aparência da circulação, sempre ridicularizou a teoria do valor-trabalho como metafísica — uma acusação que volta a ganhar força, desta vez em trajes pós-modernistas. Involuntariamente, porém, ela revela algo sobre a natureza fetichista da sociedade produtora de mercadorias. Se relações sociais reificadas se elevam a um poder cego sobre os seres humanos, o que é isso senão metafísica encarnada? O ponto em que tanto a teoria subjetiva do valor quanto o positivismo marxista tropeçam é que o valor não pode de modo algum ser fixado empiricamente. Pois não é possível nem filtrar a substância do trabalho das mercadorias, nem derivar consistentemente os valores das mercadorias do nível da aparência empírica (isto é, do nível do preço). “Então, onde está esse ominoso valor?”, perguntam nossos amigos positivistas, apenas para rejeitar imediatamente toda essa linha de questionamento. Pois aquilo que não é empiricamente tangível e mensurável não existe em sua visão de mundo.
Mas essa crítica se aplica apenas a uma variante grosseira e ela própria positivista da teoria do valor-trabalho — que, contudo, é típica da maior parte do marxismo. Pois o marxismo sempre se relacionou positivamente com a categoria do valor em dois sentidos. Primeiro, como já mencionado, o valor era efetivamente compreendido como um fato natural ou antropológico. Parecia, isto é, completamente autoevidente que o trabalho passado ou o tempo de trabalho pudesse ser literalmente preservado nos produtos como um objeto. No mínimo, entretanto, era necessário fornecer uma prova matemática de como o preço de uma mercadoria resulta de seu valor, do qual ele se desvia. E, segundo, era então apenas lógico tentar conduzir a produção social com a ajuda dessa categoria positivamente construída. Uma acusação central dirigida contra o capitalismo era, portanto, que, no mercado, os “valores reais” dos produtos são ocultados e, assim, não chegam a se realizar. No socialismo, em contraste, segundo a famosa formulação de Engels, é fácil calcular quantas horas de trabalho estão “escondidas” em uma tonelada de trigo ou de ferro.
Esse foi o programa central de todo o projeto — condenado ao fracasso — do socialismo realmente existente e, de forma diluída, também da social-democracia, um programa que foi planejado e levado a cabo de maneira mais ou menos crítica e construtiva por legiões dos chamados economistas políticos. Condenado ao fracasso porque o valor é uma categoria não empírica que, por sua natureza, não pode ser fixada, mas, ao contrário, obtém aceitação entre as pessoas como uma categoria fetichista pelas suas costas e lhes impõe suas leis cegas. Mas o desejo de conduzir conscientemente uma relação inconsciente é uma contradição. A punição histórica por tal tentativa era, portanto, inevitável.
Mas se eu disse que o valor é uma categoria não empírica, isso também significa que ele não tem relevância alguma para o desenvolvimento econômico efetivo? Evidentemente, não. Significa apenas que o valor não pode ser fixado enquanto tal e precisa passar por diferentes níveis de mediação antes de aparecer na superfície econômica sob uma forma mutada. A contribuição de Marx n’O Capital consiste em demonstrar a inter-relação lógica e estrutural desses níveis de mediação. Ele mostra como categorias da superfície econômica, tais como preço, lucro, salário e juros, podem ser derivadas da categoria do valor e de sua dinâmica interna, permitindo, assim, que sejam analisadas como tais. De maneira alguma ele se deixou enganar pela ilusão de que essas mediações poderiam ser calculadas individualmente de alguma forma empiricamente, como exigem tanto a teoria econômica quanto o marxismo positivista desarmado (sem, contudo, serem capazes de resolver eles próprios esse dilema). Mas isso não constitui de modo algum um defeito da teoria do valor; apenas evidencia a natureza inconsciente dessas mediações. Marx, contudo, jamais tentou propor uma teoria positiva que pudesse ser utilizada de alguma maneira como instrumento de política econômica. Sua preocupação, antes, era demonstrar a irracionalidade, as contradições internas e, portanto, a insustentabilidade última de uma sociedade baseada no valor. Em seu núcleo, sua teoria do valor é uma crítica do valor — não é por acaso, então, que sua obra magna é subtitulada Crítica da Economia Política — e, ao mesmo tempo, essencialmente uma teoria da crise.
A fundamentação empírica da crítica do valor em geral e da teoria da crise em particular não pode, portanto, ser realizada de forma quase científica e matematizada. Onde quer que esse critério metodológico seja aplicado a priori — como no conhecido (ou infame) debate sobre a transformação do valor em preço do marxismo acadêmico —, o conceito de valor e toda a estrutura construída em torno dele já estão fundamentalmente comprometidos. Embora seja verdade que a crítica do valor e a teoria da crise certamente possam ser sustentadas por evidências empíricas, o método deve apenas apreender as mediações e contradições internas. O que isso significa em termos concretos, neste ponto, só posso sugerir. Tomemos, por exemplo, a constatação básica da teoria da crise de que, desde a década de 1970, como resultado da expulsão absoluta e mundial da força de trabalho viva do processo de valorização, o capital atingiu os limites históricos de seu poder de expansão e, portanto, também de sua capacidade de existir. Em outras palavras, a produção moderna de mercadorias entrou em um processo fundamental de crise, que só pode resultar em seu colapso.
Essa constatação, evidentemente, não se baseia em uma derivação puramente lógico-conceitual, mas é antes o resultado da apreensão teórica e empírica dos colapsos estruturais no sistema global produtor de mercadorias desde o fim do fordismo. Isso inclui, por exemplo, como fato básico, o derretimento da substância do trabalho (isto é, a diminuição do tempo de trabalho abstrato despendido no nível máximo de produção predominante) nos setores produtivos centrais da produção para o mercado mundial, bem como o recuo contínuo do capital de enormes regiões do mundo que estão em grande medida excluídas do fluxo de mercadorias e investimentos e deixadas à própria sorte. Em última instância, contudo, a inflação violenta e a liberação do sistema de crédito e especulação também pertencem a esse contexto. O fato de que capital fictício esteja sendo acumulado em uma extensão historicamente sem precedentes, por um lado, explica por que o início da crise até agora apareceu de maneira relativamente branda nas regiões centrais do mercado mundial, mas, por outro, aponta para a intensidade da violência da iminente onda de desvalorização.
É evidente que uma teoria da crise fundada na crítica do valor pode diagnosticar equivocadamente elementos individuais e também pode deixar de antecipar todas as formas pelas quais a crise se desenvolve, ainda que se mostre inteiramente capaz na análise dos detalhes. Mas ela pode fornecer uma prova teórica e empírica de que não haverá mais novas ondas de acumulação secular e de que o capitalismo entrou irrevogavelmente em uma etapa bárbara de declínio e desintegração. Essa prova necessariamente coincide com a crítica implacável do trabalho, da mercadoria, do valor e do dinheiro e não persegue outro objetivo senão a abolição dessas abstrações fetichistas realmente existentes; e, assim também, uma vez abolida sua própria esfera de relevância, a autoabolição da teoria do valor.
– Norbert Trenkle, 1998
Bibliografia:
[1] Karl Marx, Capital: A Critique of Political Economy, Volume I, trans. Ben Fowkes (New York: Penguin, 1973) 133, and Karl Marx, “Über Friedrich Lists Buch ‘Das nationale System der politischen Ökonomie,’” Beiträge zur Geschichte der Arbeiterbewegung 3 (1972) 425-446.
[2] Marx, “Über Friedrich Lists Buch” 436.
[3] Robert Kurz, “Postmarxismus und Arbeitsfetisch,” Krisis 15 (1995).
[4] Marx, Capital I 177.
[5] Michael Heinrich, The Science of Value (Hamburg: Westfälisches Dampfboot, 1991) 173.
[6] Heinrich, Science, 187; Hans Georg Backhaus and Helmut Reichelt, “Wie ist der Wertbegriff in der Ökonomie zu konzipieren?” Engels’ Druckfassung versus Marx’ Manuskript zum III. Buch des “Kapital” (Beiträge zur Marx-Engels-Forschung Neue Folge) (Hamburg: Argument, 1995) 60-94.
ATENÇÃO:
Texto retirado de: Mediations Journal of the Marxist Literary Group (‘Value and Crisis: Basic Questions (1998)‘) | Traduzido ao português com IA.
