Parece hoje que uma teoria e prática crítica da sociedade contemporânea se preocupa principalmente em defender o trabalho, encontrar novas oportunidades para criar empregos e também defender os trabalhadores. Poderíamos, portanto, nos perguntar qual é o significado de uma expressão como: “libertar-se do trabalho”. Além disso, o senso comum se pergunta como alguém poderia viver bem sem trabalho. Naturalmente, você sempre tem que trabalhar; todos têm que trabalhar para ganhar a vida, a menos que explorem os outros. Parece também ainda mais óbvio que a sociedade enquanto tal deve trabalhar para encontrar os seus meios de vida. Sem trabalho nada do que precisamos para viver pode existir, então, naturalmente, se concebermos a crítica ao trabalho como tal, ela carece de sentido, e isso seria semelhante a criticar a pressão atmosférica ou a força gravitacional. O trabalho pode ser algo desagradável, mas é algo que sempre terá de existir. Dele não podemos nos libertar.

Naturalmente, quero apresentar hoje à noite uma outra abordagem para explicar por que — na minha opinião, e de acordo com a Teoria da Crítica do Valor, desenvolvida nos últimos anos pela revista alemã “Krisis”, mas também por outros autores de outros países — por que, portanto, essa crítica se baseia sobretudo em uma crítica ao trabalho, e ao trabalho concebido como uma categoria tipicamente capitalista, e até mesmo como o cerne da sociedade capitalista.

Naturalmente, é preciso dizer que o trabalho, no sentido moderno, não é de forma alguma sinônimo de atividade. Uma crítica à atividade humana não faria sentido. Pois é evidente que o ser humano é sempre ativo de uma forma ou de outra e que é preciso agir para organizar a “interação orgânica com a natureza”, como Marx a chamava, ou seja, extrair da natureza os meios de subsistência. Mas o que hoje chamamos de “trabalho” — e isso há pelo menos duzentos anos — não é a mesma coisa que atividade, nem mesmo atividade produtiva. Pois, quando dizemos “trabalho”, geralmente reúne-se as coisas mais diferentes, as mais díspares, em um único conceito que, ao mesmo tempo, exclui muitos outros. Por exemplo, assar pequenos pães ou dirigir um carro, cavar a terra ou digitar em um teclado, governar um país ou dar uma palestra. Tudo isso é normalmente considerado como trabalho, pois se traduz em uma certa soma de dinheiro, algo que pode ser vendido e comprado no mercado.

E há também muitas outras atividades que, normalmente, são igualmente importantes para a vida humana e que não são consideradas trabalho: por exemplo, todo o setor doméstico, que é tradicionalmente deixado a cargo das mulheres, todos os cuidados com crianças e idosos, porque essas atividades não geram dinheiro. O conceito de trabalho é, portanto, algo que separa uma parte das atividades humanas do seu conjunto, por exemplo, em relação às brincadeiras, aos rituais, às interações diretamente sociais, e também em relação a toda a reprodução privada ou doméstica. A prova disso é o fato de que a palavra “trabalho” parece ser evidente. No entanto, a palavra não existia nem em grego, nem em latim, nem em outras línguas, pelo menos não no sentido moderno. Não sei se todos vocês sabem qual é a origem da palavra. Ela deriva do latim “tripalium”, um instrumento de três pernas — daí seu nome — usado no final da Antiguidade; um instrumento que servia especificamente para torturar os servos em revolta que não queriam trabalhar. Naquela época, haviam muitas pessoas que só trabalhavam se fossem forçadas a isso por meio de tortura. Portanto, essa palavra “trabalho”, que não é do latim clássico, mas surgiu na Idade Média, já não denota a atividade em si, útil para os produtivos, e ainda menos o florescimento ou a realização de si, mas já indica como algo penoso é obtido pela força, e que não tem um conteúdo preciso. O mesmo vale para a palavra latina “labor”, que originalmente designava uma espécie de peso sob o qual se tropeça. E a palavra “labor” em latim não indica a atividade útil, mas, em geral, todo tipo de penosidade ou fadiga, bem como a dor da mulher que dá à luz. A origem etimológica da palavra alemã para trabalho: “arbeit” deve ser buscada na noção de órfão. “Arbeit” era a atividade do órfão, ou seja, de alguém cujas necessidades ninguém atendia, que era obrigado a se submeter às atividades mais penosas para conseguir sobreviver. Ontem, descobri que a palavra basca que traduz a ideia de trabalho também evoca o cansaço e o esforço.

Portanto, não se trata apenas de uma incursão na etimologia, o que já é significativo; mas isso demonstra que, até uma época relativamente recente, o conceito de trabalho, tal como o concebemos hoje, não existia. Isso nos leva a pensar que mesmo o trabalho, como categoria social, como uma forma de conceber a atividade na sociedade, não é algo tão natural, tão óbvio, tão inerente ao ser humano, mas que o que chamamos de trabalho é uma criação social. Conforme mencionei, o ser humano sempre foi ativo, sempre teve muitas atividades exaustivas e penosas, mas, nas sociedades anteriores à sociedade capitalista industrial, existiam principalmente certas necessidades. Algumas delas podiam ser absurdas, como a do faraó que desejava construir pirâmides — não é essa a questão —, mas sempre se definiam as necessidades e, em seguida, para satisfazê-las, colocavam-se em prática as atividades necessárias. Portanto, as atividades existiam na medida em que eram necessárias para atender a essas necessidades. O que interessava à sociedade não era a atividade, e sim o resultado: não era o fato de cavar a terra, mas sim o trigo que se queria colher. E essa também é a razão pela qual se procurava, preferencialmente, que as atividades mais penosas fossem realizadas por escravos ou servos. Mas, mesmo assim, não se obrigava os escravos a trabalhar pelo simples fato de trabalhar, e sim porque os senhores queriam desfrutar dos bens deste mundo. Tudo isso mudou no mundo capitalista. Isso começou em alguns lugares no final da Idade Média e, sobretudo, durante o verdadeiro florescimento da sociedade capitalista, na segunda metade do século XVIII, quando o trabalho se tornou o verdadeiro objetivo da sociedade e não um meio. É certo que, no plano da história mundial, trata-se de uma das mudanças mais importantes, como tentarei explicar a seguir.

A sociedade capitalista é a única sociedade na história da humanidade em que a única atividade produtiva — ou o que podemos chamar de trabalho — não é mais apenas um meio para atingir um fim, mas se torna um fim em si mesma, para usar uma expressão um tanto filosófica. De fato, todo o trabalho na sociedade capitalista é, de certa forma, um trabalho abstrato. Abstrato não significa imaterial, informático etc., como alguns dizem hoje em dia. Esse não é, de forma alguma, o sentido da palavra para Karl Marx em sua obra principal, “O Capital”, e no primeiro capítulo, que não começa de forma alguma com as classes, nem com a luta de classes, nem com a propriedade dos meios de produção, nem com o proletariado. Marx, no primeiro capítulo de “O Capital”, começa analisando as categorias que, segundo ele, são as mais fundamentais da sociedade capitalista. Apenas na sociedade capitalista, não em todas as sociedades humanas. E são, nomeadamente, a mercadoria, o valor, o dinheiro e o trabalho abstrato. Por trabalho abstrato, Karl Marx se refere ao seguinte: em um regime capitalista, todo trabalho tem dois lados; ele é, ao mesmo tempo, trabalho abstrato e trabalho concreto. Não se trata de dois tipos diferentes de trabalho, mas dos dois lados da mesma atividade. Para dar exemplos muito simples: o trabalho do marceneiro e do alfaiate são, do lado concreto, atividades muito diferentes, que não se podem comparar de forma alguma entre si, pois um utiliza tecido, o outro madeira etc. São dois produtos muito diferentes e são dois tipos de atividades muito diferentes se os considerarmos sob o ângulo da atividade concreta. Ao mesmo tempo, todas as atividades também têm algo em comum: são, como diz Marx, “um gasto de músculos, nervos ou cérebro”.

Todo trabalho é, ao mesmo tempo, um gasto de energia humana. Isso sempre é verdade, mas é somente na sociedade capitalista que esse outro aspecto — esse gasto de atividade, de energia humana — se torna o aspecto mais interessante e mais importante no plano social. Porque ele é igual em todos os trabalhos e em todas as mercadorias. Porque, embora naturalmente toda atividade possa ser reduzida a um simples gasto de energia, trata-se de um gasto simples que se desenrola ao longo do tempo. Nessa perspectiva, o trabalho do alfaiate e o do marceneiro são completamente diferentes no aspecto concreto, mas no aspecto abstrato — no que diz respeito à energia gasta — eles são absolutamente iguais, e a única diferença reside em sua duração e, portanto, em sua quantidade. Está claro o suficiente? Por exemplo, se uma mesa foi feita em duas horas de trabalho, ela tem o dobro do valor de uma camisa que o alfaiate conseguiu costurar em apenas uma hora. Agora, na realidade, isso é muito mais complicado do que parece, pois não se trata apenas do trabalho direto do marceneiro. Este último também teve que utilizar materiais naturais, mas isso não altera o quadro geral. Portanto, o que determina, a longo prazo, no mercado capitalista, o valor das mercadorias é o trabalho que foi empregado. Mas também porque esse trabalho é a única coisa que é igual em todas as mercadorias; caso contrário, não haveria nenhuma possibilidade de compará-las. Preciso simplificar um pouco para a palestra: o valor passa, em seguida, por muitas transformações até se traduzir, finalmente, nos preços de mercado, mas a lógica básica, segundo Marx, continua sendo esta: o valor de uma mercadoria é determinado pelo tempo de trabalho necessário para criá-la e, portanto, desse ponto de vista, todas as mercadorias são iguais — uma mercadoria vale quatro horas, outra duas horas, outra meia hora. Isso significa que se abstrai o aspecto concreto de uma mercadoria. É claro que a atividade sempre precisa se concretizar em algo tangível, pois, se a mercadoria não atendesse a nenhuma necessidade, seria bastante difícil vendê-la. Mesmo que também seja possível criar a necessidade posteriormente, etc.

Mas, ao mesmo tempo, não são a necessidade nem a demanda que determinam o valor no mercado. É apenas o tempo de trabalho que foi despendido e, portanto, isso significa, por definição, que o trabalho que conta no sistema capitalista, no mercado, é sempre o trabalho abstrato, um trabalho absolutamente indiferente a qualquer conteúdo e que se interessa apenas por sua própria quantidade. A única coisa importante no mercado capitalista é ter a maior quantidade possível de trabalho disponível para poder vendê-la. Essa quantidade de trabalho se traduz em valor, e o valor, em dinheiro. De fato, para o mercado, não importa se se trata de uma mesa ou de uma camisa. O importante é que a mesa possa custar cem euros e a camisa, dez euros. Cada mercadoria corresponde a uma quantidade de dinheiro. Portanto, diante do dinheiro, todas as mercadorias são iguais. Mas, em última análise, o dinheiro não passa de um representante do trabalho despendido na produção — não do trabalho em seu aspecto concreto, mas em seu aspecto abstrato. Desculpem-me se me repito várias vezes, pois aparentemente isso é muito simples, mas, na verdade, não é tão fácil compreender essa dupla natureza da mercadoria, que é também uma dupla natureza do trabalho. Na produção capitalista para o mercado capitalista, a única coisa que interessa é o trabalho abstrato, e isso leva a uma total indiferença em relação ao conteúdo: se, ao investir capital na fabricação de bombas, essas bombas representarem uma quantidade maior de trabalho em comparação, por exemplo, com a fabricação de pães, então investe-se nas bombas.

É importante observar que não se trata de maldade psicológica ou moral por parte do detentor do capital; isso pode muito bem estar presente, mas não é a raiz do problema. Como tal, o capitalismo do sistema é fetichista, como diz Marx, ou seja, é um sistema automático, anônimo e impessoal, no qual as pessoas, de certa forma, devem apenas cumprir as leis do mercado. E essas leis do mercado determinam que é preciso buscar a maior quantidade possível de dinheiro, pois, caso contrário, seremos eliminados pela concorrência. E a maior quantidade de dinheiro significa que é preciso conseguir mobilizar a maior quantidade de trabalho, pois é o trabalho que gera valor e o lucro só se cria por meio do que Marx chama de mais-valia ou sobrevalor – a tradução é diferente em francês e em alemão –, porque é apenas a parte do trabalho dos trabalhadores, aquela que não é remunerada e que reverte para o proprietário do capital, que obtém seu lucro sobre a mais-valia, que é uma parte do valor. Então, o que deve fazer o proprietário do capital? Ele possui uma quantia em dinheiro e, com essa quantia, compra a força de trabalho, os recursos naturais e as máquinas; faz o trabalhador trabalhar e, em seguida, retém o produto. Mas há aqui uma diferença muito importante em relação a qualquer outro tipo de sociedade. Naturalmente, o proprietário do capital não faria esse investimento se, ao final do processo, não obtivesse uma quantia de valor maior do que a inicial. Investir seu dinheiro significa investir dez mil euros para obter, no final, doze mil euros; caso contrário, isso não faria sentido do ponto de vista capitalista. E, portanto, o aspecto abstrato prevalece absolutamente sobre o aspecto concreto. Porque, se em outro tipo de sociedade — sempre simplificando —, em uma troca concreta, por exemplo, entre o marceneiro e o alfaiate, não é a relação de valor que interessa, então o marceneiro não precisa de outra mesa e pode, portanto, trocar pela camisa que ele não sabe fazer, mas que o outro lhe dará. Nesse último caso, há uma relação entre duas necessidades.

Por outro lado, quando o objetivo da produção é transformar uma quantia de dinheiro em uma quantia maior, não há mais esse interesse pela necessidade, mas apenas um interesse pelo crescimento quantitativo. Se eu troco uma camisa por uma mesa, não há necessidade de crescimento quantitativo: ali, nessa hipotética sociedade anterior, o importante é que todas as necessidades sejam satisfeitas. Não é a mesma coisa quando o dinheiro é o objetivo da produção. Nesse caso, não há nenhum objetivo concreto; o único objetivo é, portanto, quantitativo: aumentar, ou seja, transformar dez em doze, depois doze em quatorze, quatorze em vinte e assim por diante. Essa é uma diferença enorme entre a sociedade capitalista e todas as sociedades anteriores. A característica da sociedade capitalista não é ser injusta, nem dedicar-se à exploração. As outras sociedades também o eram, mas eram sociedades mais ou menos estáveis, pois a produção tinha como objetivo satisfazer necessidades — pelo menos as necessidades dos senhores —, e isso significa que todo objetivo concreto é limitado, pois não posso comer o tempo todo; toda atividade concreta encontra seu limite. Não é o mesmo caso para uma atividade puramente, poderíamos dizer, matemática e quantitativa, como o aumento do capital, do dinheiro, pois não há ali nenhum limite natural; é um processo que deve continuar indefinidamente, e é também a concorrência que leva cada um a jamais se limitar, mas a buscar sempre aumentar seu capital: assim age cada proprietário de capital, sem qualquer consideração pelas consequências ecológicas, humanas, sociais etc. Tudo isso não é novidade; não estou fazendo nada além de resumir o que Marx diz. No entanto, esse é um aspecto de Marx menos conhecido em comparação, por exemplo, com a luta de classes. Mas é preciso sempre lembrar que o capital é dinheiro acumulado. O dinheiro é a representação mais ou menos material do valor, e o valor é trabalho.

Na verdade, o capital não é totalmente oposto ao trabalho; portanto, o capital é trabalho acumulado. Assim, a acumulação de capital é a acumulação de trabalho. Ou, mais precisamente, de trabalho morto, de trabalho já realizado que cria valor, e esse valor, na forma de dinheiro, é então reinvestido nos ciclos produtivos. Porque um proprietário de capital tem interesse em fazer trabalhar o máximo possível: se eu obtenho um determinado lucro empregando um trabalhador, obtenho o dobro do lucro empregando dois trabalhadores e, se empregar quatro trabalhadores, obtenho quatro vezes o mesmo lucro, se tudo correr bem. Isso significa que o proprietário de capital tem todo o interesse em fazer trabalhar o máximo possível. A questão não é fazer as pessoas trabalharem porque a sociedade tem necessidades, mas sim fazer as pessoas trabalharem pelo simples fato de trabalhar, pois é somente fazendo as pessoas trabalharem que se acumula capital. Portanto, é possível criar a necessidade posteriormente, se for o caso. Assim, a sociedade capitalista não é apenas a sociedade da exploração do trabalho alheio, mas uma sociedade na qual o trabalho é a forma de riqueza social. A acumulação de objetos concretos, de bens de uso, que é bem real na sociedade capitalista industrial, é, de certa forma, um aspecto secundário, pois todo o lado concreto da produção não passa de uma espécie de pretexto para fazer as pessoas trabalharem. E isso porque é somente trabalhando que se cria valor, a única coisa que interessa do ponto de vista do capitalismo, já que o dinheiro representa o trabalho. Pode-se, portanto, dizer que o trabalho é uma categoria tipicamente capitalista e que nem sempre existiu. E isso fica evidente, de fato, porque, desde o seu surgimento, o capitalismo imediatamente desencadeou um ritmo de trabalho nunca antes visto. Até a Revolução Francesa, como vocês provavelmente sabem, um em cada três dias era feriado; mesmo os camponeses, embora trabalhassem muito em certas épocas do ano, trabalhavam muito menos em outras. Já com o capitalismo industrial, a jornada de trabalho dobrou ou triplicou em poucas décadas. No início da Revolução Industrial, trabalhava-se até dezesseis, dezoito horas por dia! Essa é a realidade descrita nos romances do escritor inglês Charles Dickens.

Hoje, aparentemente, trabalhamos menos; chegamos à semana de quarenta horas, de trinta e cinco horas, o que talvez corresponda mais ou menos às horas de trabalho da sociedade pré-industrial, mesmo que já não existisse, naquela época, essa diferença entre trabalho e não trabalho. Mas não é certo que trabalhemos menos agora do que no século XIX, pois foi a intensidade do trabalho que aumentou enormemente. Por exemplo, a primeira fábrica que introduziu a jornada de oito horas não o fez sob pressão de movimentos operários, nem por iniciativa de um filantropo socialista, mas sim pelo famoso Henry Ford, aquele que construiu a maior fábrica de automóveis dos EUA no início do século XX. Ford introduziu a jornada de oito horas aumentando significativamente os salários, pois, anteriormente, com a gestão científica da força de trabalho desenvolvida pelo engenheiro Taylor[2], ele havia encontrado maneiras de fazer com que os operários realizassem mais trabalho em oito horas do que em dez ou doze horas. Ele compreendeu que, ao organizar cientificamente cada movimento — era a famosa linha de montagem automática —, poderia fazer com que seus operários fabricassem mais carros em oito horas do que outras fábricas em dez ou doze horas. Portanto, pode-se ter certeza de que toda a redução da jornada de trabalho foi, ao mesmo tempo, acompanhada por um aumento na intensidade dos ritmos de trabalho.

E mesmo hoje é evidente que o trabalho tende, em geral, a ultrapassar os limites temporais uma vez estabelecida a semana de quarenta horas ou de trinta e cinco horas, porque hoje, em tempos de desemprego, se não se pode correr o risco de perder o emprego, é preciso continuar trabalhando mesmo depois de ter voltado para casa: é preciso fazer formação contínua, é preciso se manter informado ou praticar esportes para estar sempre em forma para o trabalho e, portanto, é certo que hoje, mesmo que, em teoria, a semana de trabalho dure trinta e cinco ou quarenta horas, nossa realidade é muito mais determinada pelo trabalho do que nas sociedades anteriores. Temos, portanto, esse paradoxo de que, com todos os meios produtivos inventados pelo capitalismo, trabalhamos cada vez mais. Esse é um dos fatores tão simples e óbvios que muitas vezes nos esquecemos de mencioná-lo. O capitalismo sempre foi uma sociedade industrial. Ele começou com a máquina a vapor, com os teares, porque toda invenção tecnológica utilizada pelo capitalismo sempre teve como objetivo substituir o trabalho humano por uma máquina, ou permitir que um operário produzisse dez vezes mais do que um artesão. Isso significa que toda a tecnologia capitalista é uma tecnologia para economizar trabalho. E, portanto, para produzir a mesma quantidade de coisas que antes com muito menos trabalho. Qual é o resultado? Trabalhamos cada vez mais; essa é a realidade que vivemos há duzentos e cinquenta anos! De fato, um economista do século XIX, que não se pode suspeitar que fosse um grande crítico do capitalismo, John Stuart Mill, já havia dito que nenhuma invenção destinada a economizar trabalho jamais permitiu que alguém trabalhasse menos. Quanto mais máquinas que economizam trabalho existem, mais ainda é preciso trabalhar. E isso é totalmente lógico, pois se, em uma sociedade que deseja satisfazer necessidades concretas, há possibilidades tecnológicas para produzir mais, isso significa que toda a sociedade deve trabalhar menos; ou mesmo, se quisermos talvez aumentar um pouco o consumo material, podemos produzir um pouco mais, mas sempre trabalhando pouco.

Na verdade, na sociedade capitalista, que não tem nenhum objetivo concreto, nenhum limite, nada de concreto a que se dirija, mas que sempre visa apenas aumentar a quantidade de dinheiro, é, portanto, perfeitamente lógico que qualquer invenção que aumente a produtividade do trabalho tenha como resultado fazer com que os seres humanos trabalhem ainda mais. Não preciso me alongar mais sobre as consequências catastróficas de tal sociedade. Direi, por exemplo, que essa é a explicação profunda da crise ecológica, que não se deve a uma espécie de ganância natural do homem que sempre quer possuir mais, nem mesmo ao fato de haver gente demais no mundo; mas, de certa forma, a razão mais profunda da crise ecológica é, também nesse caso, o aumento da produtividade do trabalho. Porque, na lógica da acumulação de capital, o que importa é apenas a quantidade de valor contida em cada mercadoria. Se um artesão leva uma hora para confeccionar uma camisa, essa camisa vale uma hora no mercado. Se, com uma máquina, o mesmo trabalhador puder fazer dez camisas em uma hora, estou simplificando, como sempre, cada camisa representa apenas seis minutos de trabalho e vale apenas seis minutos. Portanto, o lucro para o proprietário do capital é de dois minutos por cada camisa. Isso significa que, para obter o mesmo lucro de antes, ele precisa produzir e vender dez camisas, ao passo que antes bastava uma camisa.

O aumento da produtividade do trabalho no sistema capitalista leva a um aumento constante da produção de bens concretos, muito além de qualquer necessidade real. É só depois que se cria artificialmente a necessidade para conseguir escoar toda essa mercadoria. Trata-se de um processo ininterruptível, já que toda invenção reduz o trabalho necessário e, consequentemente, o lucro inerente a cada mercadoria. Portanto, é preciso produzir cada vez mais mercadorias. Uma sociedade na qual o trabalho é o bem supremo é uma sociedade com consequências catastróficas, já no plano ecológico. A sociedade do trabalho é muito pouco agradável para os indivíduos, para a sociedade e para o planeta inteiro. Mas isso não é tudo, pois a sociedade do trabalho, após cerca de mais de duzentos anos, declara a seus membros, em última instância: “Não há mais trabalho”. Eis uma sociedade do trabalho em que, para viver, é preciso vender sua força de trabalho se não se for proprietário do capital, mas que não quer mais essa força de trabalho, que não lhe interessa mais. Portanto, é a sociedade do trabalho que abole o trabalho. Foi a sociedade do trabalho que se adaptou à sua necessidade de trabalho, tornando o ato de trabalhar uma condição absolutamente necessária para se ter acesso à riqueza social. Não se trata de um acaso, já era possível prever isso, ou pelo menos prever suas consequências no início do capitalismo, pois existe essa contradição fundamental no trabalho capitalista: por um lado, o trabalho é a única fonte de riqueza e, portanto, para um proprietário de capital, é melhor empregar dois operários em vez de um, e quatro em vez de dois. Por outro lado, se dermos uma máquina a um operário, ele produzirá muito mais do que um operário que não tem máquina, ou seja, do que um artesão, e as mercadorias produzidas poderão ser vendidas a preços mais baixos. Isso ficou evidente sobretudo no início da era capitalista, por exemplo, quando os ingleses, com seus tecidos e roupas, conquistaram o mundo, pois, naturalmente, com a produção industrial, eles podiam facilmente superar toda a produção artesanal.

Isso significa que cada proprietário de capital tem todo o interesse em fornecer o máximo de tecnologia aos seus trabalhadores e, assim, reduzir o número de trabalhadores para substituí-los por máquinas. Quando surge uma nova tecnologia, isso confere ao mercado uma grande vantagem aos primeiros proprietários de capital que empregam essas tecnologias, pois podem vender a preços baixos. No entanto, a concorrência acabará por anular essas vantagens, pois todos os proprietários de capital irão adquirir essas máquinas, se puderem; em seguida, outra máquina será imediatamente lançada no mercado, e o processo recomeça. Isso significa, portanto, que toda a história do capitalismo é a história da substituição do trabalho vivo, do trabalho humano, por máquinas, e significa também que o próprio sistema capitalista, desde o início, mina suas próprias bases, serra o galho em que está sentado. É uma contradição da qual o regime capitalista não pode escapar, pois é um sistema de mercado necessariamente competitivo: os capitalistas não podem fazer acordos entre si para que a concorrência deixe de existir, do tipo “vamos parar essa corrida tecnológica para conter essa queda nos lucros”. Isso não pode acontecer. Como o capitalismo é uma sociedade competitiva, sempre há alguém que utiliza novas tecnologias e, portanto, esses processos nunca param: a força de trabalho é substituída por máquinas que não produzem valor. Consequentemente, se para um artesão uma camisa pode representar uma hora de trabalho, com a revolução industrial uma camisa pode representar apenas seis minutos de trabalho, pois com uma máquina são produzidas dez camisas em uma hora. Se hoje, graças à informática, é possível produzir cem camisas em uma hora, cada camisa representa apenas um centésimo. Portanto, se cada produto representa uma quantidade menor de valor, isso significa que representa uma quantidade menor de mais-valia e, consequentemente, de lucro para o proprietário do capital. É esse fato que Karl Marx denominou de “tendência à queda da taxa de lucro”, ou seja, cada mercadoria é cada vez menos lucrativa para o proprietário do capital que a faz produzir.

Essa tendência, que é inevitável devido à concorrência, é contrariada por outra tendência, como já vimos historicamente, e pelo fato de que, embora cada mercadoria gere menos lucro, por ter menos valor, é possível aumentar a quantidade de produtos; pois, se uma camisa representa apenas seis minutos de trabalho, mas eu vender onze camisas, por exemplo, obtenho um lucro maior do que antes, maior, por exemplo, do que o do artesão, com uma hora de trabalho. Foi isso que, historicamente, aconteceu. Houve um aumento contínuo da quantidade absoluta de mercadorias, o que também representou um aumento absoluto da quantidade de valores que compensou e até supercompensou o fato de que cada mercadoria específica representava menos trabalho. O fato mais notável ocorreu na indústria automotiva. Transformou-se um produto de luxo em um produto de massa, um produto que exigia muito trabalho e empregava muitos trabalhadores, e ampliou-se um grande circuito de produção e, posteriormente, de consumo. Foi o período das “trinta gloriosas”, que se chama justamente de “época fordista”. Por mais de um século, essa tendência inevitável no desenvolvimento do capitalismo reduzia o valor. O valor de cada produto era contrabalançado pelo aumento da massa. Portanto, esse tipo de compensação chegou definitivamente ao fim, podemos afirmar isso agora, com a revolução microeletrônica. Com os processos de microinformática, a tecnologia avançou de tal forma que economiza-se muito mais trabalho, e muito mais rapidamente, do que se consegue recriar em outros setores. Esse é um fato que podemos observar efetivamente há várias décadas. Também se pode dizer que, atualmente, não é apenas a inovação de produtos, mas também a inovação de processos que é tão rápida que não há mais compensação possível do outro lado. Pois, por si só, o processo informático exige muito pouco trabalho e conseguiu aumentar enormemente a produtividade do trabalho, utilizando um número cada vez menor de trabalhadores. Por exemplo, o número de pessoas empregadas na indústria nos grandes países europeus diminuiu quase pela metade em relação à década de 1970, enquanto a produtividade aumentou, creio eu, 70%, segundo os dados.

Todos vocês sabem que, na verdade, esses novos processos tecnológicos permitiram reduzir o número de trabalhadores produtivos, pois, ao mesmo tempo, possibilitaram o aumento da produtividade. Portanto, neste ponto, podemos fazer uma ou duas observações: não é verdade que o trabalho industrial produtivo esteja diminuindo; ele apenas se deslocou para outros locais, por exemplo, na Ásia. Podemos discutir isso longamente, mas me parece bastante evidente que essas deslocalizações, em geral, dizem respeito apenas a certos setores, sobretudo ao setor têxtil, e em alguns países por um período de tempo bastante limitado. O que chamávamos de “Tigres asiáticos” já atingiram, de certa forma, seus limites. Por exemplo, não se conseguiu impulsionar ali um novo modelo de capitalismo que se estendesse a todo o setor produtivo em todo o país, etc. Diz-se agora que a China seria o futuro do capitalismo. Mas talvez se esqueça que há certas regiões na China, ou certos setores industriais, onde se emprega muita gente com salários muito baixos. Ao mesmo tempo, devido a esse mesmo desenvolvimento na China, centenas de milhões de pessoas estão perdendo seus empregos tradicionais, na indústria pesada tradicional ou na agricultura, etc. Portanto, acho que podemos afirmar com segurança que há, em todo o mundo, e não apenas nos países europeus, essa redução contínua da força de trabalho, da força de trabalho empregada.

E, a longo prazo, mesmo nos países com baixos salários, os processos informatizados também serão mais competitivos do que a mão de obra. Por outro lado, diz-se que se perdem muitos postos de trabalho na indústria, mas que eles são recriados em outros setores, como o de serviços, etc. No entanto, percebe-se que isso já não é mais verdade, que se trata de uma ilusão que durou alguns anos. O desemprego agora está aumentando enormemente, mesmo nos setores de serviços e, por exemplo, a “nova economia”[3] que nos prometeram na internet nunca decolou, porque esses são setores que empregam muito poucas pessoas. Por outro lado, também é preciso dizer que o que interessa na sociedade capitalista não é apenas o trabalho em si, mas o trabalho que produz valor, pois o detentor do capital não quer apenas fazer as pessoas trabalharem, ele quer que elas trabalhem de forma a reconstituir seu capital. Se o detentor do capital paga aos trabalhadores para trabalharem em uma fábrica, por exemplo, ele pode, posteriormente, revender os produtos e reconstruir seu capital por meio da acumulação. Se o mesmo proprietário de capital empregar seu dinheiro para manter muitos empregados domésticos em sua casa, ele simplesmente gasta seu capital, que não renderá frutos. Portanto, esse tipo de trabalho, todo o trabalho de serviços em geral, não é produtivo no sentido capitalista, e isso não apenas em nível individual, mas também em nível social. Assim, os trabalhadores, que, aliás, costumam ser os mais úteis para a sociedade, por exemplo, nos setores da saúde, da educação etc., tudo o que é pago pelo Estado, e também no setor de armamento etc., não realizam trabalhos produtivos no sentido capitalista, porque o dinheiro simplesmente não é gasto nessas atividades. Não há retorno de capital. Pode-se dizer que, além do desemprego que vemos todos os dias, há algo ainda mais dramático: é a diminuição do trabalho produtivo de capital na sociedade. Pois, na sociedade capitalista, os serviços são, em geral, pagos pelos impostos e pelo fato de ainda existirem verdadeiros processos produtivos sobre os quais o Estado pode cobrar impostos. Se não houver mais produtividade desse tipo, portanto, o Estado não poderá mais cobrar impostos, e a sociedade de serviços, da qual os sociólogos tanto falaram, chegará ao fim rapidamente.

Portanto, podemos afirmar com segurança que é o capitalismo como um todo que está passando por uma situação de crise. Não concordo com aqueles que dizem que o capitalismo está mais saudável do que nunca, que são a sociedade ou os indivíduos que estão mal e que ainda há multinacionais e empresas que obtêm bons lucros. Pelo menos no papel, pois parte da riqueza já é produzida exclusivamente nos circuitos financeiros que existem apenas nos balanços patrimoniais. Todo o sistema capitalista, todas as possibilidades de aplicar capital de forma a explorar o trabalho para depois revendê-lo e aumentar o capital etc., tudo o que constituía a base do capitalismo parece estar em grave crise. E isso não porque ele tenha gerado adversários implacáveis, nem porque tenha criado um proletariado cuja força pudesse pôr fim ao capitalismo, como foi por muito tempo a esperança do movimento operário, mas porque o capitalismo se autodestruiu, não por uma vontade suicida imediata, mas porque isso estava, de certa forma, inscrito em seu código genético, desde o momento de seu nascimento: em uma sociedade que considerava o trabalho abstrato como fonte de riqueza, já havia um conteúdo, uma dinâmica, que, mais cedo ou mais tarde, levaria à situação atual. Uma situação em que o trabalho cria riqueza, mas em que o sistema produtivo não precisa mais de trabalho. A situação é paradoxal: a produtividade em escala mundial causa miséria. É tão paradoxal que muitas vezes nem percebemos isso, como todas as coisas que são tão óbvias que acabamos perdendo de vista.

Portanto, nos últimos duzentos anos, assistimos a uma explosão das possibilidades produtivas como nunca antes na história. Mas surge outra questão: todas essas possibilidades produtivas são sempre positivas para a humanidade e para o planeta? Acho que a maioria é, na verdade, prejudicial. Mas podemos afirmar que, utilizando as possibilidades produtivas existentes, seria possível garantir que todos tivessem tudo o que é necessário, trabalhando muito pouco. No entanto, o que está acontecendo vai na direção contrária: retira-se a possibilidade de viver daqueles que não conseguem trabalhar, e as poucas pessoas que trabalham precisam trabalhar cada vez mais. Aqui se coloca a questão da partilha, mas não da partilha do trabalho, como nesse slogan: “Trabalhem todos, trabalhem menos”, e sim da riqueza que existe no mundo entre todos os habitantes do planeta, sem forçar ninguém a trabalhar quando isso não é necessário. Com tudo isso, não pretendo fazer um elogio à automação. Existe também uma crítica ao trabalho que faz uma espécie de elogio à automação, dizendo: “Ah! Então todo mundo poderia trabalhar duas horas por dia apenas supervisionando as máquinas!” Acho que essa não é a questão. Acima de tudo, uma sociedade da automação não faria sentido se favorecesse uma espécie de sociedade do lazer, onde, na pior das hipóteses, o tempo excedente levasse as pessoas a ficarem mais tempo assistindo televisão. Como é o caso da semana de trinta e cinco horas, que provavelmente só aumentou em cinco horas por semana o tempo que a maioria das pessoas passa assistindo televisão.

A crítica à sociedade do trabalho também não é, para mim, um elogio à preguiça. Muitas atividades e até mesmo muitos cansaços são úteis e podem constituir uma espécie de dignidade para o ser humano. Muitas vezes, paradoxalmente, é justamente o trabalho que impede a atividade, que impede o cansaço. Assim, por exemplo, o trabalho constitui um obstáculo a atividades muito mais úteis: quando as famílias são obrigadas a deixar seus filhos recém-nascidos em creches, quando não se pode mais cuidar dos idosos etc. E o sistema de trabalho impede atividades diretamente produtivas, como, por exemplo, a agricultura em todo o mundo. Há um grande número de camponeses que precisam abandonar suas atividades, e isso não por razões naturais: não são seus solos que estão esgotados, mas simplesmente porque o mercado e, portanto, o sistema de trabalho, impede que o camponês africano venda seus produtos nos mercados locais. Isso porque existem as multinacionais do setor agrícola que podem vender a preços mais baixos, já que empregam menos trabalho abstrato. Obviamente, o agricultor americano está mais tecnologizado; portanto, seus produtos contêm menos trabalho e, por isso, ele vende a preços mais baixos do que os agricultores do Terceiro Mundo. Trata-se aqui de um bom exemplo do lado concreto e do lado abstrato do trabalho.

No que diz respeito ao trabalho concreto: o pequeno agricultor na África pode realizar o mesmo trabalho que fazia há trinta anos, porque o trabalho concreto permaneceu o mesmo. No que diz respeito ao trabalho abstrato, seu trabalho tradicional vale muito menos do que antes, porque os empresários conseguem, devido à concorrência, realizar o mesmo trabalho e obter o mesmo produto gastando muito menos trabalho e muito menos tempo de trabalho. Portanto, podemos dizer de forma muito concreta que é o lado abstrato do trabalho que mata as pessoas, que mata quem exerce a atividade concreta. Em muitos casos, a sociedade do trabalho está condenada a uma espécie de inatividade forçada, como quando fábricas ou outras possibilidades produtivas são simplesmente fechadas ou destruídas por não serem mais rentáveis o suficiente. Consequentemente, acho que é preciso sair da sociedade do trabalho para poder iniciar atividades úteis. A crítica ao trabalho não significa, portanto, necessariamente uma cultura boêmia ou o culto à preguiça, mas é preciso se libertar do culto ao trabalho. O sistema de trabalho capitalista, de fato, nunca teria sido eficaz se não tivesse impulsionado constantemente um verdadeiro culto ao trabalho, o que historicamente se denomina “ética protestante do trabalho”, segundo a qual o trabalho, o cansaço e a atividade em si constituem uma espécie de nobreza do ser humano, além de qualquer conteúdo. Em todas as sociedades capitalistas, o cansaço existe pelo fato de se querer alcançar algum objetivo, não por ser obrigado a trabalhar oito ou dez horas por dia, nem por buscar algo que seja desejável. Na sociedade capitalista industrial, é o ato de trabalhar, em si mesmo, que é valorizado. E até mesmo do ponto de vista moral. É por isso que os desempregados são frequentemente considerados pessoas inúteis, prejudiciais. Muitos desempregados têm vergonha de estar desempregados, enquanto que, se trabalhassem em uma fábrica de bombas ou de chaveiros, ficariam muito orgulhosos, porque “eu trabalho”. Como se não fosse melhor não trabalhar do que participar da produção atual. Pois o orgulho tradicional dos trabalhadores consiste simplesmente em ter conseguido vender sua força de trabalho, sem questionar seu conteúdo. Então, por que é mais honroso trabalhar em uma fábrica onde se fabricam bombas ou automóveis do que estar na situação das mulheres, por exemplo, que não “trabalham”, que cuidam dos filhos e da casa?

O culto ao trabalho no sistema capitalista valorizou, portanto, um certo tipo de atividade, levando em conta apenas o dispêndio de energia vital para o trabalho, em detrimento do conteúdo. É preciso libertar-se disso e valorizar o trabalho para além de seus conteúdos específicos. Diz-se frequentemente que o desemprego é uma afronta à dignidade humana. Francamente, não vejo onde reside a dignidade no fato de conseguir vender a si mesmo. A dignidade residiria, antes, no direito de acessar todos os recursos necessários para organizar a própria vida. Isso implica que uma política de crítica social e de contestação da sociedade capitalista, nos dias de hoje, não deveria pleitear a criação de novos empregos nem sonhar com um impossível retorno à sociedade de pleno emprego; deveria, sim, exigir para todos — individual e coletivamente — o direito de acesso direto a recursos, terrenos, oficinas, fábricas e ao saber imaterial, a fim de organizar coletivamente a produção onde ela for realmente necessária. Afinal, grande parte da produção atual é, evidentemente, totalmente desnecessária e poderia ser interrompida: armamentos, burocracia, carros que precisam ser trocados três anos após a compra.

No entanto, quando se faz esse tipo de proposta, sempre surge alguém para protestar: “Mas então não haverá mais empregos, não haverá mais postos de trabalho se interrompermos essa produção!” Deveríamos inverter a objeção: “Seria muito melhor para a sociedade se pudéssemos garantir a nossa sobrevivência com muito menos trabalho!” E, naturalmente, ao custo que antecedia aquela norma social que faz da venda da própria força de trabalho a condição para o acesso à riqueza social!

– Anselm Jappe

Notas:

1. Bibliografia ao final do texto.
2. (cf. o taylorismo)
3. “A nova economia”
4. Pessoas que adotam as teses de Negri e Hardt em seu livro “Império”.
5. Editions Lignes, Léo Scheer.

Traduzido por Gabriel Antonio Ahmad

Título original: Quelques bonnes raisons de se libérer du travail

ATENÇÃO:
Texto original retirado de: Krisis (‘Quelques bonnes raisons de se libérer du travail’, Anselm Jappe)

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