
Nota: Neste ensaio, Ian Wright recorre à linguagem da religião, da magia e do ocultismo para desenvolver uma análise da relação social sob domínio do Capital. A comparação entre a eucaristia cristã e a “eucaristia sombria” serve para expor o caráter alienante e autonomizado do Capital como “sujeito automático”. Partindo das reflexões de Marx sobre dinheiro, alienação e o “Deus real”, Wright apresenta o capital não apenas como riqueza acumulada pela figura do capitalista, mas como uma estrutura social autorreprodutiva, orientada pelo lucro e pela concorrência, que impõe seus imperativos tanto a trabalhadores quanto a capitalistas. Para expressar essa força autonomizada, recorre-se à figura da egrégora: uma entidade produzida pela atividade coletiva que, por sua vez, passa a condicioná-la. A analogia culmina na “eucaristia sombria”: o trabalho humano aparece como sacrifício, o lucro como alimento da expansão do valor e o dinheiro como forma sensível de uma relação social que parece adquirir existência e poderes próprios. Nesse sentido, questiona-se a ideia de que a modernidade teria simplesmente “desencantado” o mundo. Agradeço a Ian Wright por ter autorizado a tradução e publicação desse texto, que originalmente se encontra em Dark Age Marxism (‘Dark Eucharist of the Real God‘).
A sociedade capitalista, quando reflete sobre si mesma no espelho da teoria social, vê a imagem de um modo de produção secular e racional, não sem máculas, mas, em última instância, moldado pela busca pragmática, porém nobre, do progresso material. Em contraste, épocas históricas anteriores, quando contemplavam o espelho, deixavam-se encantar pelo reflexo cintilante de um panteão de reis-deuses e divindades sobre-humanas. Em tais circunstâncias, o curso da história era parcialmente governado por uma grande interação entre os povos e seus deuses. Mas nós, modernos, mais maduros e mais plenamente conscientes, contemplamos com clareza desimpedida o verdadeiro reflexo de nossa própria humanidade, agora sozinha, porém livre de mistificação. Coletivamente, embora de maneira confusa, fazemos nossa própria história sem relações com o além. Pois nós, diferentemente de nossos precursores menos esclarecidos, livramo-nos de todo encantamento.
“A reforma da consciência consiste apenas em tornar o mundo consciente de sua própria consciência, em despertá-lo de seu sonho a respeito de si mesmo, em explicar-lhe o significado de suas próprias ações. Todo o nosso objetivo só pode ser — como também ocorre na crítica da religião de Feuerbach — dar às questões religiosas e filosóficas a forma correspondente ao homem que se tornou consciente de si mesmo.
Portanto, nosso lema deve ser: reforma da consciência não por meio de dogmas, mas mediante a análise da consciência mística, ininteligível para si mesma, quer se manifeste sob uma forma religiosa, quer sob uma forma política. Tornar-se-á então evidente que o mundo há muito sonha possuir algo de que apenas precisa tornar-se consciente para possuí-lo na realidade. Tornar-se-á evidente que não se trata de traçar uma grande linha divisória mental entre passado e futuro, mas de realizar os pensamentos do passado. Por fim, tornar-se-á evidente que a humanidade não está iniciando uma nova obra, mas está conscientemente levando a efeito sua antiga obra.” (Marx a Ruge, Kreuznach, setembro de 1843)
Nosso reflexo lampeja no espelho. Subitamente, uma presença sombria paira em nossas costas. Fixamos os olhos nela, horrorizados. Mas ela desapareceu. Não há nada ali. Devemos ter nos enganado. Nosso mundo moderno não tem lugar para tais coisas.
Parte Um: A Magia da Eucaristia
Evocando espíritos
Todos os dias, milhões de cristãos reúnem-se em igrejas por todo o globo para realizar o ritual sagrado da eucaristia. Pão e vinho comuns transformam-se na carne e sangue de Cristo.
A eucaristia é um ritual de evocação e, portanto, compartilha semelhanças com a técnica igualmente antiga da magia salomônica. O Talmude Babilônico, composto por volta de 500 d.C. a partir de fontes orais anteriores, descreve como o rei Salomão, governante do antigo Reino de Israel, evocou o Príncipe dos Demônios para ajudá-lo a construir seu Templo.
Ao longo dos séculos, as técnicas mágicas de Salomão difundiram-se por toda parte, ocasionalmente emergindo de uma transmissão subterrânea para aparecer sob forma escrita, como em antigos papiros mágicos, grimórios medievais e na literatura ocultista do período moderno.
O cristianismo, desde seus primeiros dias, rejeitou qualquer identificação com as práticas mágicas de religiões anteriores e concorrentes. Os rituais cristãos são considerados sagrados, não mágicos. O Novo Testamento zomba dos truques de Simão, o Mago. Os milagres de Cristo, em contraste, são reais.

La Última Cena por Juan de Juanes, 1562
A fonte divina da magia evocativa
Entretanto, a capacidade dos sacerdotes ordenados de evocar Cristo e a capacidade dos magos ocultistas de evocar anjos e demônios derivam da mesma fonte, que é Deus.
Cristo, no Novo Testamento, exorciza um demônio de um homem e o transfere para uma manada de porcos. Os porcos possuídos enlouquecem então e afogam-se em um lago. E Cristo, durante a Última Ceia, antecipando sua morte na cruz, partilhou pão e vinho e proclamou: “Isto é o meu corpo… isto é o meu sangue.” A enunciação de Cristo instituiu o ritual da Eucaristia para Sua Igreja embrionária, os primeiros apóstolos reunidos, para que Seu sacerdócio não terminasse com Sua morte, mas perdurasse por toda a eternidade.
O Testamento de Salomão, datado aproximadamente do século II d.C., descreve como o Anjo Miguel, emissário de Deus, deu ao rei Salomão um anel mágico marcado com o selo de Deus na forma de um pentagrama. O anel mágico deu a Salomão o poder de comandar espíritos.
Deus, sendo onipotente, naturalmente possui o poder de comandar espíritos inferiores. E ocasionalmente concede esse poder aos seres humanos.
A ciência da evocação
A Eucaristia e a magia salomônica, enquanto formas de magia evocativa concedidas por Deus, compartilham técnicas em comum.
Tanto sacerdotes quanto magos purificam-se ritualmente e praticam abstinência sexual antes da evocação. Ambos vestem trajes especiais que foram abençoados e usam talismãs mágicos, como uma cruz de metal ou um lámen pendurado ao pescoço, que afastam espíritos malignos.
O sacerdote pronuncia palavras de consagração sobre o pão e o vinho. O mago, sob a proteção de um círculo mágico, recita feitiços, nomes bárbaros e solicita o auxílio de anjos que frustram as forças hostis. As palavras são mágicas devido à sua proveniência divina e transformam tanto o sacerdote quanto o mago em condutos do poder divino.
A evocação de espíritos não deve ser tratada levianamente. Os feitiços devem ser proferidos com solenidade e precisão e acompanhados por movimentos rituais exatos, como fazer o sinal da cruz ou gesticular em direção aos pontos cardeais. Os instrumentos corretos devem ser empregados. Por exemplo, sacerdotes da Igreja Cristã Ortodoxa brandem teatralmente um hexapterygon, que é um bastão de metal com um anjo de seis asas fixado em sua extremidade, e magos salomônicos utilizam uma vara de ferro, ou uma espada especialmente forjada, ou uma faca de cabo preto, de preferência uma que já tenha sido usada para matar um homem. Esses instrumentos mágicos ajudam a “fixar” o espírito uma vez evocado.
Uma dificuldade de trabalhar com espíritos, em comparação com outras substâncias, é que eles são tipicamente insubstanciais. Consequentemente, é necessário um receptáculo físico, ou spiritus loci, para que o espírito possa nele se manifestar. Na Eucaristia, o pão e o vinho desempenham esse papel. Na magia salomônica, um Triângulo da Arte, ou um recipiente de latão, fumaça de incenso ou um espelho negro constrangerão o espírito a se manifestar aos nossos sentidos ordinários.
O momento da manifestação, ou epiclese, pode ser mais ou menos dramático. Na Eucaristia, a evocação, salvo um milagre, é sempre bem-sucedida. O pão e o vinho comuns invariavelmente se transformam na carne e no sangue de Cristo. Em contraste, a evocação de demônios é muito menos confiável e pode fracassar apesar de uma preparação meticulosa. A epiclese, caso de fato ocorra, pode portanto ser mais dramática: o demônio como uma presença temível sentida, ou visível em um espelho negro, ou, com menor frequência, plenamente substancial, postado de maneira malévola do lado de fora do círculo.
Os santos sacramentos — o pão e o vinho transformados — constituem a presença substancial de Cristo e, portanto, merecem o maior respeito e atenção dos fiéis. Os sacramentos podem ser erguidos no alto ou, por vezes, exibidos em um magnífico e ornamentado ostensório. Os demônios, naturalmente, são perigosos e não são dignos de confiança. Podem realizar um desejo, mas de maneira a prejudicar o mago. Assim, os desejos devem ser formulados com extremo cuidado, na forma de um contrato mágico vinculante. E aos demônios deve ser concedida a licença apropriada para partir ao encerramento da cerimônia, caso contrário poderão permanecer, com consequências terríveis.

Cristo, Deus encarnado, crucificado. Foto original por Alem Sánchez. (Editada)
O sacrifício de Deus
Embora a Eucaristia e a magia salomônica sejam ambas modalidades de evocação de espíritos, os rituais diferem em seu significado e importância.
A magia salomônica, desde os primeiros exemplos escritos, de cerca de 300 a.C., é um método destinado a coagir uma hierarquia de criaturas espirituais. A Eucaristia não possui qualquer elemento de coerção. Pois a Eucaristia é uma santa comunhão, uma união em amizade. Portanto, nada temos a temer — nenhuma necessidade de círculos protetores ou de contratos mágicos cuidadosamente redigidos. Porque o Deus cristão, dizem-nos, não nutre má vontade contra nós; na verdade, ama-nos com um amor que ultrapassa nossa imaginação.
O altar cristão, no contexto da Eucaristia, é um altar sacrificial. Cristo, o espírito evocado, não se manifesta para cumprir nossas ordens, mas para nos recordar de Seu supremo autossacrifício. Deus permitiu que Cristo fosse morto pelas autoridades romanas. A crucificação foi o autossacrifício amoroso de Deus por nós. A Eucaristia, portanto, não é meramente uma evocação de espírito, mas também a re-encenação de um rito sacrificial.
Os antigos gregos e egípcios matavam enormes quantidades de ovelhas, cabras e porcos em rituais mágicos destinados a obter o favor divino. Os deuses pagãos, embora fossem divindades não humanas, ainda assim adotavam normas humanas de troca recíproca. Quanto maior a oferenda sacrificial, maior o benefício potencial.
O Deus do Antigo Testamento assegurava a prosperidade e o bem-estar de sua casa se você sacrificasse um cordeiro e espalhasse seu sangue sobre os umbrais de sua porta. Um rato simplesmente não serviria. Dádivas ainda mais valiosas dos deuses, como sua ajuda em batalha, poderiam ser obtidas mediante o abate de milhares de criaturas em grandes orgias hecatômbicas.
O deicídio, o sacrifício do ser supremo, deve portanto possuir um valor incomparavelmente maior do que o sacrifício de um simples cordeiro, por mais inocente e imerecedor do abate que ele seja. O sacrifício de sangue do filho de Deus, o derramamento de sangue sem pecado e inocente sobre a madeira da cruz, constituiu uma perda calamitosa da presença de Deus na Terra. O que poderia constituir sacrifício maior do que levar ao abate nosso criador, que habitava entre nós? Consequentemente, a morte de Cristo não assegura meramente uma única casa contra as vicissitudes da vida cotidiana, mas proporciona nada menos que a salvação de todas as casas, da humanidade inteira e, em última instância, a dádiva de um ponto ômega final, uma união bem-aventurada com Deus.
O pão e o vinho são pedaços do cadáver de Cristo, que são então ingeridos, tal como ocorria com os antigos sacrifícios animais. Esse consumo do espírito revigora a congregação com a graça do Espírito Santo. A Eucaristia, portanto, é simultaneamente uma evocação, um sacrifício e uma união com o ser supremo e, portanto, é altamente mágica.
Mas o que é magia?
Darei uma breve resposta a essa pergunta enunciando duas leis fundamentais da magia. Essas leis raramente são discutidas e, portanto, são profundamente ocultas, pois o conhecimento delas possui, por si mesmo, o efeito mágico de diminuir suas capacidades mágicas.
Portanto, se você deseja levar uma vida mágica, deve parar de ler agora. Pare por alguns instantes e considere cuidadosamente se deseja continuar. Não há volta.

As leis secretas da magia
A essência da magia é a imaginação. E, portanto, a magia sempre mistura o real com o irreal, incluindo aquilo que é simplesmente falso.
A magia real, em virtude desse elemento de falsidade, está portanto relacionada à magia comum executada por um mágico de teatro. Truques mágicos desse tipo são concebidos para criar crenças no impossível. Um objeto surgindo do nada. Ficamos surpresos e encantados porque esse acontecimento contradiz nossas crenças a respeito de como o mundo realmente funciona.
Mas ninguém, nem o artista nem o membro da plateia, espera qualquer revisão fundamental de suas crenças. Todos conhecemos as regras sociais em jogo. Ninguém é verdadeiramente enganado, porque o truque é transitório e termina quando o teatro se esvazia. O público volta para casa entretido, mas inalterado. Porque aquilo que parecia impossível era, afinal, possível.
Magos reais também criam crenças que não podem ser verdadeiras. Mas aqui o truque consiste em enganar a si mesmo e aos outros a fim de criar crenças persistentes no impossível. Magos reais — ao fazer descer um anjo para dentro de um cristal, ao evocar um espírito goético no canto sombrio de uma câmara fria, ou ao manifestar Cristo em pão e vinho comuns — acreditam autenticamente na eficácia de seus rituais. O horror ou o assombro podem ser intensos, e a lembrança duradoura, persistindo para além do encerramento do ritual.
A magia real funciona estimulando nossa imaginação a criar e ampliar lacunas liminares em nossas teorias ordinárias acerca de como o mundo funciona. E então preenche essas lacunas com conteúdo extraordinário e esotérico. A magia real, quando bem-sucedida, liberta-se dos acontecimentos rituais para impregnar a vida cotidiana com nova significação e novo sentido.
Ninguém acredita que a magia comum seja real. Mas, na magia real, espera-se que todos acreditem.
E assim, a primeira lei da magia afirma que a magia funciona quando os participantes acreditam que ela funciona precisamente da maneira como ela não funciona. Se os participantes compreendessem verdadeiramente os mecanismos em operação, a magia se dissiparia e perderia seu poder. A magia funciona melhor quando você acredita plena e genuinamente que ela é verdadeira.
A segunda lei afirma que o poder e o impacto de um efeito mágico aumentam de acordo com a incredibilidade das crenças associadas. Ter um pequeno desejo realizado após jogar uma moeda em um poço é agradável, mas poderia ser uma coincidência, enquanto a comunicação com a divindade suprema em forma visível poderia despedaçar sua personalidade e alterar todo o curso de sua vida.
Uma consequência necessária dessas leis é que os magos reais, consciente ou inconscientemente, devem lidar com um compromisso fundamental de engenharia social: efeitos mágicos mais fortes exigem crença em falsidades mais incríveis, mas falsidades mais incríveis são mais difíceis de acreditar. A magia real possui um compromisso entre poder e credulidade.
Esse compromisso explica por que textos mágicos, desde a Antiguidade até os dias atuais, exigem grandes investimentos de tempo para adquirir conhecimento e poder secretos. Os iniciados devem dominar grandes extensões de saber mágico e meditar regularmente para elevar sua capacidade de concentrar-se de maneira crível no incrível. Instrumentos mágicos devem ser construídos com materiais difíceis de obter. Os rituais devem ser realizados em circunstâncias precisas, no momento correto do dia, sob o alinhamento adequado das estrelas. Esse trabalho árduo e esse comprometimento acumulam custos irrecuperáveis materiais e psicológicos significativos. As técnicas predispõem o praticante e podem elevar a expectativa de um efeito mágico a tal crescendo que o ritual, quando realizado, proporciona um retorno proporcional sobre o investimento de tempo e esforço, um verdadeiro retorno pelo que foi gasto, isto é, um efeito real.
Portanto, a magia real realmente funciona.
Magos, com esforço e disciplina suficientes, podem inverter permanentemente suas mentes, alterar todo o seu arcabouço conceitual e sua interpretação dos acontecimentos cotidianos. Porque aquilo que percebemos determina de maneira radicalmente insuficiente aquilo que pode ser o caso. Há uma quantidade surpreendente de margem de manobra para visões de mundo mágicas que permanecem consistentes com vastas extensões de dados sensoriais, incluindo a crença em entidades extraordinárias.
Todos os templos dedicados aos deuses pagãos, cujos vestígios ainda decoram nossa paisagem, foram construídos por mentes plenamente comprometidas com sua existência real. As grandes catedrais cristãs, erguidas a custos enormes, foram verdadeiramente construídas para celebrar a encarnação de Deus como Cristo.
No caso dos fenômenos mágicos, o conhecimento efetivo, do tipo produzido pelo método científico, realmente mata seu objeto de estudo em vez de aperfeiçoá-lo. Portanto, as leis fundamentais da magia devem permanecer sempre encobertas, verdadeiramente ocultas, para que a magia possa funcionar.

Um ostensório que exibe o Santíssimo Sacramento, a presença real de Cristo na Terra.
A presença real de Cristo
As crenças mágicas, contudo, não podem flutuar inteiramente livres das normas racionais que surgem espontaneamente da necessidade de reproduzir materialmente a sociedade. Construtores de templos normalmente não evocam demônios, mas aplicam seus conhecimentos de mecânica. Consequentemente, a manutenção da credulidade mágica exige certa acomodação com o estoque geral de crenças ordinárias, não mágicas, acerca daquilo que existe e de como as coisas funcionam.
A Eucaristia — enquanto evocação, sacrifício e união com o ser supremo — é altamente mágica. Ela, portanto, leva a credulidade ao limite e convida ao ceticismo. Os grandes intelectos do cristianismo dedicaram, ao longo dos tempos, considerável esforço para reconciliar seus mistérios internos com o conhecimento profano da sociedade mais ampla.
O principal desafio consiste em preservar o poder da Eucaristia, derivado da crença de que Cristo está realmente presente durante o ritual, sem esgotar a credulidade, derivada do fato de que Cristo na realidade não está. Os teóricos cristãos oscilam entre dois extremos: interpretações inflacionárias — que afirmam que Deus está objetiva e, portanto, milagrosamente presente — e interpretações deflacionárias — que afirmam que Deus está subjetiva e, portanto, mundanamente presente.
Uma deflação completa reduz a presença de Cristo a uma mera evocação na memória. Pelo lado positivo, isso é inteiramente crível. Pelo lado negativo, o efeito mágico é correspondentemente menos intenso.
Os deflacionistas, a fim de conservar algum poder mágico, podem adicionalmente afirmar que o pão e o vinho são símbolos sociais que remetem a Cristo, mas não de maneira mundana como uma placa de trânsito, e sim milagrosamente, em virtude do poder de Deus. Os símbolos representam objetivamente Cristo, não meramente porque acreditamos nisso, mas em virtude da presença real de Deus, tanto como Pai quanto como Filho. Isso é mais mágico, embora sua credibilidade seja inteiramente circular.
As interpretações inflacionárias, por outro lado, propõem que Cristo está realmente presente no pão e no vinho. Trata-se de uma afirmação ambiciosa. Mas os inflacionistas rapidamente enfatizam que seria teologicamente ingênuo pensar que algum experimento científico poderia, em princípio, verificar essa presença. Deus nos livre de que Deus seja submetido à prova por meros intelectos humanos.
Em vez disso, teólogos medievais recorreram à distinção aristotélica entre uma substância invariável, por exemplo, uma coleção de moléculas de H2O, e suas propriedades acidentais, por exemplo, se a água é líquida, sólida ou gasosa; se está quente ou fria; se é transparente ou opaca etc., para explicar o fato de que o pão e o vinho permanecem praticamente inalterados segundo nossos sentidos durante o ritual. A manifestação divina, o efetivo acolhimento de Cristo pela hóstia, não altera as propriedades acidentais do pão e do vinho, mas “transubstancia” sua substância subjacente. Mas só podemos perceber propriedades acidentais, de modo que essa mudança nos é inacessível. Como alguns teólogos corajosamente assinalam, a afirmação de Cristo de que “isto é o meu corpo” efetivamente comunica uma “afirmação de fato”, mas não uma afirmação “da ordem empírica”.
As interpretações inflacionárias claramente possuem maior poder mágico. Tão grande é esse poder que a magia pode irromper na própria realidade acessível.
A Festa de Corpus Christi, que celebra a Presença Real de Cristo, foi instituída pelo papa Urbano IV em 1264 em resposta ao milagre de uma hóstia consagrada que derramou sangue real sobre um tecido. No século XX, foram encontrados vestígios de tecido do miocárdio em pão consagrado que apresentava sinais de estresse compatíveis com morte provocada por crucificação traumática. E a magia da Eucaristia, muito ocasionalmente, estende-se até mesmo aos humildes animais. O Diálogo sobre os Milagres, do século XIII, relata que abelhas construíram um santuário para Cristo depois que pão sacramental foi colocado dentro de sua colmeia.

Uma espiral de produção espiritual
Independentemente das sutilezas teológicas, a Eucaristia produz um fruto, um resultado, um produto que possui um caráter duplo, ou bifacetado. Por um lado, é pão e vinho; por outro, a carne e o sangue de Cristo, seja substancialmente, seja referencialmente. O extraordinário produto da Eucaristia nada menos é que a substância de Deus, o ser supremo, porém em estado sacrificado.
Os fiéis consomem a substância divina para estabelecer laços com a comunidade cristã em amor familiar, unir-se intimamente a Cristo e receber nutrição espiritual e redenção, que são o fruto de seu sacrifício original na cruz. Cristo afirmou:
“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.” [João 6, 54.]
Assim, a Eucaristia também promete uma espécie de imortalidade. Essa substância divina, em virtude de seus poderes mágicos, tem sido altamente demandada por aproximadamente dois milênios.
Mas a Eucaristia não é meramente um ciclo autorreprodutor de produção, distribuição e consumo de uma substância divina. A Eucaristia deve ser realizada em escalas cada vez maiores. Cristo deu a seus discípulos o poder de comandar demônios e instruiu-os a partir e batizar todas as nações. O cristianismo cresceu rapidamente de um pequeno culto judaico até tornar-se a religião oficial do Império Romano e, depois, dominar a vida espiritual da Europa medieval. A missão da Igreja de Cristo consiste em difundir o evangelho, isto é, o bom feitiço, para toda a humanidade e celebrar a Eucaristia em escalas cada vez maiores, evocando assim quantidades cada vez maiores da substância salvífica para dentro de nosso mundo material até que, no limite, no último dia, toda a criação esteja preenchida de amor divino, salva e redimida, em santa e eterna comunhão com Deus.
A participação em massa na Eucaristia impulsiona a humanidade numa espiral ascendente em direção ao Bem. A Eucaristia é uma solução mágica para o problema do mal que capturou a imaginação de milhões de pessoas e afetou significativamente o curso da história humana.
A Eucaristia é, de fato, uma magia poderosa. Entretanto, é algo extremamente insignificante em comparação com o imenso poder mágico da Eucaristia Sombria, à qual nos voltaremos agora.
Parte Dois: Encantamento Sombrio

Linda Benedict-Jones – Time release, 1976.
O momento da epiclese, ao evocar um espírito, pode ser experimentado como uma revolução súbita no significado daquilo que já está empiricamente presente. A sombra no canto, que você observava com medo crescente, move-se quase imperceptivelmente, revelando uma forma substancial. Os “horrores além dos limites da vida” existem e exercem sua influência funesta muito antes de os percebermos.
Desencantamento
O capitalismo, ao libertar-se das restrições feudais do monarca e da Igreja, desenvolveu sua própria cultura comercial, na qual o juiz supremo era o sucesso mundano medido pelo lucro. Naturalmente, a burguesia preservou de bom grado quaisquer ideias religiosas compatíveis com a acumulação de capital. Mas, em termos gerais, o Iluminismo do século XVIII possuía um núcleo radicalmente secular.
O crescimento da indústria significou um número maior de pessoas concentradas na pragmática da produção. Todos estavam ocupados com um novo tipo de negócio. Os olhos voltavam-se com menor frequência para o alto a fim de contemplar seres supralunares. Assim, as visões de mundo mágicas tornaram-se menos relevantes, e a religião foi relegada a algumas horas aos domingos.
O novo campo das ciências sociais, confiante sobre sua base burguesa, começou a encarar a religião e a magia como objetos culturais a serem estudados e comparados, em vez de ideias pelas quais viver e morrer. As ciências sociais chegaram até mesmo a voltar sua atenção para seus próprios pressupostos. O sociólogo Max Weber concebeu a comercialização da sociedade como um processo de desencantamento, um triunfo do secular sobre o sagrado.
Entretanto, como sabem todos os magos, uma magia poderosa só pode ser dissipada por uma magia ainda mais poderosa. O foco do capitalismo no sucesso comercial, bem como sua racionalidade científica e instrumental disseminada por toda parte, não podem explicar plenamente a morte de Deus.
Uma espiral de produção material
A ciência econômica é o próprio relato do capitalismo acerca de sua natureza fundamental. Ela surgiu como um campo distinto de investigação nos séculos XVIII e XIX. Desde o início, foi concebida principalmente como uma ciência do comportamento humano sujeito a restrições materiais, como a escassez de terra, trabalho e capital.
A visão liberal clássica de uma economia capitalista é a de uma grande troca entre pessoas mediada pelo dinheiro e pelos mercados. Em uma extremidade do organismo social, as pessoas produzem bens; na outra, as pessoas os consomem. A troca mercantil conecta e integra os dois polos. As leis da oferta e da demanda asseguram que a produção se ajuste ao que os consumidores desejam. Aqueles que possuem capital contratam trabalho a um preço justo de mercado quando necessário e liberam a força de trabalho para ser empregada em outro lugar quando ela não é necessária. O trabalho é, portanto, empregado corretamente, embora com um desemprego inevitável, porém temporário. A economia, impulsionada pelos desejos e necessidades humanos, adapta-se e cresce por meio dos sinais da taxa de lucro, que incentivam a inovação e a eficiência, permitindo a produção em escalas crescentes. Naturalmente, as restrições de recursos não podem ser abolidas. Nem todos podem ter tudo o que desejam. Pelo menos não de imediato. Mas a busca pelo lucro, o trabalho árduo e a poupança prudente para o futuro produzem inexoravelmente os frutos de uma riqueza material crescente e conduzem a humanidade numa espiral ascendente em direção a um ponto ômega final de satisfação universal de todos os desejos humanos.
Uma crença central da ideologia capitalista é a de que nós, seres humanos, impulsionamos o sistema, de que, em última instância, estamos no controle. A virada marginalista na ciência econômica, no século XIX, consolidou-se em torno da visão do homo economicus, o indivíduo racional que age para otimizar seu interesse próprio. A economia neoclássica, no século XX, propôs “agentes representativos”, que são mentes singulares que agregam as preferências de milhões de pessoas, dotadas do poder de orientar economias nacionais mediante a maximização da utilidade de acordo com os axiomas da teoria da escolha racional. Sim, o Estado pode precisar intervir para defender os direitos de propriedade. Pode até mesmo precisar desmantelar um monopólio aqui e ali. Mas, de modo geral, nós, seres humanos, quando nos auto-organizamos por meio do dinheiro e dos mercados, controlamos nosso próprio destino e alcançamos resultados ótimos.
A humanidade, nos mundos encantados da Antiguidade clássica e da Idade Média, mantinha relações com seres espirituais. Daí a longa história de trocas sacrificiais entre os povos e seus deuses. Mas o capitalismo eliminou os deuses. Em nosso mundo desencantado, o motor imóvel são nossos próprios desejos humanos, e não um espírito oculto. A economia concebe o capitalismo como uma grande troca secular da humanidade consigo mesma. Encontramo-nos uns diante dos outros no mercado, e nada se interpõe entre nós. Somos indivíduos soberanos, livres da superstição feudal e livres para comprar e vender como desejarmos.
Mas livres dentro de restrições. Estamos todos sujeitos às leis fundamentais da economia que emergem de nosso comportamento coletivo. A escassez de recursos não pode ser abolida. Devemos, portanto, aceitar que quase tudo o que fazemos é simultaneamente possibilitado e limitado pela quantidade de dinheiro à nossa disposição. Pois o dinheiro em nossos bolsos, dizem-nos, é meramente uma representação local dessa escassez global. Se você possui muito pouco e sua vida é empobrecida, isso é lamentável, mas não realmente evitável.
A visão secular da economia é compatível com muitos aspectos de nossa experiência cotidiana. Mas sombras avultam nos limites dessa visão, insinuando outras realidades. A ciência econômica negligencia o fato de que leis emergentes precisam ser impostas por poderes emergentes. O capitalismo desencantou o mundo medieval apenas ao tecer seu próprio novo encantamento. Mas trata-se de um encantamento sombrio que oculta a existência de um grande poder de imposição que espreita nas sombras. Quando nos encontramos uns diante dos outros no mercado, ele se interpõe entre nós, não como mediador de nossos desejos, mas como controlador deles.

Egrégoras
Podemos começar a dissipar o encantamento sombrio e discernir os contornos do grande poder que espreita nas sombras quando percebemos que nossas atividades econômicas não instanciam meras leis econômicas, mas circuitos completos de controle por retroalimentação que funcionam como entidades semiautônomas e controlam as atividades de seu próprio substrato humano. Egrégoras, e não meramente leis econômicas, sobrevêm às nossas práticas sociais.
Uma egrégora é uma entidade que existe em virtude das atividades rituais coletivas de um grupo, mas opera autonomamente, de acordo com sua própria lógica interna, para influenciar e controlar materialmente as atividades do grupo. O grupo cria a egrégora, e a egrégora cria o grupo, em um circuito de retroalimentação autorreforçador.
Como Edmund Griffiths assinala, tomamos como dada a existência de seres mundanos — como pessoas, animais, plantas e assim por diante. Mas as religiões normalmente propõem a existência de seres extraordinários. Tais proposições fazem parte das crenças centrais do sistema religioso e são carregadas de afeto emocional. Por exemplo, todos os deuses são egrégoras personificadas que seus seguidores acreditam existir independentemente deles.
Cristo, por exemplo, é uma das egrégoras da fé cristã, considerado Deus literalmente personificado como ser humano. Essa afirmação pode ser verdadeira ou falsa. Mas a realidade social das egrégoras e seus efeitos reais são inteiramente independentes desse julgamento. De fato, algumas egrégoras existem sem sequer serem conhecidas.

A presença real do Deus real
Todos os modos de produção necessitam de métodos para organizar o trabalho e alocar recursos. Mas Marx, em seus comentários de 1844 sobre James Mill, assinala que, no capitalismo, essa necessidade assume uma forma desnecessariamente alienada. E por alienada ele quer dizer retirada de nossas mãos e entregue a algo que não está sob nosso controle consciente.
Marx afirma que, na sociedade capitalista, nossas atividades econômicas são controladas por uma entidade efetiva, um “Deus real”, dotado de poderes causais reais. E Marx lamenta que tenhamos nos tornado escravos desse deus e que seu culto tenha se convertido em um fim em si mesmo. Em outras palavras, as relações sociais do capitalismo evocam uma egrégora.
Como? O capitalismo é um sistema social dominado por capitais privados concorrentes. Um capital privado não é meramente uma grande soma de dinheiro, mas um sistema de controle por retroalimentação inteiramente orientado para a maximização do lucro. Os capitalistas, como proprietários temporários do capital, devem buscar o lucro ou assistir à diminuição de seu capital e correr o risco de serem lançados às fileiras dos trabalhadores assalariados. E os trabalhadores assalariados devem procurar capitais dispostos a contratar seu trabalho. As leis da concorrência capitalista, que são uma consequência não intencional de nossos métodos particulares de organização, compelem todos nós a nos comportarmos de determinadas maneiras e, portanto, criam parcialmente o tipo de seres que somos. Os seres humanos no circuito, tanto os trabalhadores que fazem quanto os capitalistas que tomam, desempenham obedientemente os papéis sociais que lhes foram atribuídos, como bonecos de pano encantados.
Capitais nascem, combinam-se, dividem-se e morrem. Muitos são pequenos, extraindo lucro de um punhado de trabalhadores assalariados; alguns são astronomicamente grandes, extraindo lucro de centenas de milhões. Os capitais podem persistir ao longo de múltiplas gerações, sobrevivendo a seus veículos humanos temporários.
Cada capital privado disputa maniacamente o lucro reagindo aos sinais da taxa de lucro provenientes de toda atividade produtiva que possa ser apropriada, distribuindo recompensas e punições monetárias, injetando fundos em atividades lucrativas e retirando fundos daquelas que não o são. Consequentemente, a totalidade dos recursos materiais do mundo, incluindo o tempo de trabalho de bilhões de pessoas, é repetidamente mobilizada e remobilizada para longe das atividades de baixo lucro e em direção às de alto lucro.
O Deus real de Marx, ao qual ele dá o nome de “capital”, é uma egrégora evocada à existência por cada circuito de acumulação de capital. A egrégora é uma entidade semiautônoma dotada de sua própria forma primitiva de cognição: ela quer lucro, percebe a presença e a ausência de lucro e então age em seu mundo para obter mais lucro.
Nossas primeiras teorias sobre o funcionamento do mundo eram animistas. O Deus do Antigo Testamento enfurecia-se e punia Israel com pestilência. A ciência moderna rejeita esse antropomorfismo e, em vez disso, explica regularidades empíricas, sejam naturais ou sociais, em termos de leis. Mas as leis, devidamente compreendidas, são descrições dos poderes causais das coisas. A importante verdade do animismo arcaico é que nosso mundo é, de fato, povoado por coisas dotadas de poderes próprios que existem independentemente de nós.
O Deus real de Marx é precisamente uma entidade desse tipo. É uma presença real entre nós. Seus imperativos possuem nossas mentes e ditam nossas ações. Ele não é feito de carne e ossos. Possui uma realidade puramente social. Ainda assim, esse animismo exangue tem consequências sangrentas.
Um modo de produção oculto
A Igreja de Cristo celebra sua presença real durante a Eucaristia. Mas o capitalismo não celebra nem personifica seu Deus real. Na verdade, sua egrégora encontra-se tão completamente ocultada que ainda carece de uma expressão teórica completa e, portanto, de um nome próprio.
O Deus real permanece oculto por duas razões principais. Primeiro, aquilo que existe não é imediatamente revelado pela experiência direta. Precisamos realizar trabalho científico para descobrir os mecanismos sociais ocultos que governam nossas vidas. A egrégora do capitalismo é uma consequência de nossas relações sociais e, portanto, está objetivamente oculta. Sua existência singular e duradoura deve ser inferida a partir da pluralidade de seus efeitos empíricos. E foi somente com a heresia marxista do século XIX que essa inferência alcançou pela primeira vez sua maturidade.
A segunda razão é mais mágica e, portanto, diz mais respeito à imaginação. A raiz etimológica da palavra religião significa vincular, criar uma obrigação entre os seres humanos e um deus. Todas as religiões vinculam suas comunidades. Portanto, devemos esperar semelhanças estruturais entre práticas religiosas e econômicas, porque ambas organizam e integram comunidades.
Toda instituição social necessita de uma boa narrativa para conferir sentido a seus rituais. Cristo é adorado por sua mensagem de salvação. Entretanto, a ideologia capitalista, para preservar seu poder mágico, deve negar seu próprio deus, caso contrário corre o risco de desfazer os vínculos de sua comunidade. O conhecimento de que o mundo é controlado por uma entidade alienígena, que converte toda inovação poupadora de trabalho na férrea necessidade de trabalhar ainda mais, que recompensa escandalosamente os poucos que possui com poder e riquezas enquanto deixa a maioria despossuída, que corrompe a democracia e a impede em nossos locais de trabalho, que captura o grande poder do Estado para ampliar seu domínio, disciplinar os pobres e suprimir a oposição, que impele nações dominadas por grandes capitais a competir para explorar aquelas dominadas por capitais menores, inclusive travando sangrentas guerras imperiais de conquista e ruína, que recompensa a pilhagem do mundo natural sem reposição e que restringe nossa imaginação política coletiva a subsistir perpetuamente dentro dos estreitos limites de lamentar, mas não impedir, a miséria humana que cegamente cria, esse conhecimento deve ser completa e absolutamente reprimido. Pois, se mais de nós soubéssemos que simplesmente não precisa ser assim, que cada um desses males sociais, e outros mais, não é uma consequência necessária das relações humanas, mas uma consequência desnecessária da ditadura do Capital, então o encantamento sombrio se dissiparia e o verdadeiro horror emergiria das sombras.
A ideologia capitalista celebra uma ruptura radical e progressista com o paternalismo e a superstição feudais. Antes, acreditávamos em deuses e magia. Mas agora somos modernos e racionais. A mercantilização universal e a busca privada pelo lucro fornecem os bens. Trata-se de uma magia poderosa, mas as afirmações panglossianas perdem credibilidade quando confrontadas com nossa falta de controle, com nossa repetida incapacidade de mudar qualquer coisa para melhor. O compromisso entre poder e credulidade deve, portanto, ser administrado.
A economia burguesa reprime a heresia marxista. Mas os fracassos generalizados em fornecer os bens ainda precisam ser explicados. A ciência econômica desenvolveu uma elaborada teodiceia, com uma variedade de opções teóricas adequadas a diferentes níveis de tolerância ao incrível, que redireciona a culpa pelos males sociais para qualquer coisa que não seja a existência do domínio do capital. Os austríacos atribuem a queda em desgraça à ausência de moeda forte. O Estado maligno corrompe ao emitir moeda fiduciária. Os neoclássicos alardeiam teoremas do bem-estar que provam que a concorrência capitalista é um mecanismo perfeito que produz resultados ótimos, se ao menos fosse concedida ao capital plena liberdade para mercantilizar tudo sob o sol. Os keynesianos, de maneira mais crível, admitem que o capitalismo irrestrito possui problemas de coordenação e distribuição, mas, de maneira menos crível, propõem que políticos burgueses, representantes possuídos pelo Deus real, irão resolvê-los.
O glamour é forte, mas vacila no canto de nossos olhos. Vislumbramos lampejos para além do véu: capitalistas ganhando em uma única noite de sono mais do que trabalhadores ganham em toda uma vida de salários; países ricos com pessoas persistentemente sem moradia e, ao mesmo tempo, tijolos sem utilização, terras ociosas e trabalhadores da construção civil desempregados; famílias passando fome em meio à abundância de alimentos. Os economistas são magos inconscientes, pois acreditam autenticamente naquilo que pregam, e suas palavras de poder continuamente retecem o encantamento sombrio ao manter crenças incríveis na bondade intrínseca do domínio do capital.
O capitalismo não transcende a religião. É meramente seu oposto invertido. Ainda não nos livramos de espíritos, deuses e demônios. Nosso mundo permanece encantado, mas sombriamente. O capitalismo é um modo de produção oculto, com um deus oculto e uma Eucaristia Sombria. Pois qualquer religião suficientemente avançada é indistinguível da economia.
Parte Três: A magia da Eucaristia Sombria
Marx sobre o dinheiro e Cristo
Marx, em seus Comentários sobre James Mill, depois de afirmar que o capitalismo é um novo tipo de culto que adora um Deus real, imediatamente reflete sobre as estranhas afinidades entre Cristo e o dinheiro. Marx escreve:
“Cristo representa originalmente: 1) os homens perante Deus; 2) Deus para os homens; 3) os homens para o homem.”
Essa é uma afirmação elíptica. Mas Marx sugere que Cristo é um símbolo multívoco que medeia a maneira como a humanidade se relaciona consigo mesma e com Deus. A tese é Cristo como um homem comum, como todos nós, humilde perante Deus. A antítese é Cristo como Deus encarnado que ama Sua criação. A síntese, que transcende a contradição, é a Igreja, nossa comunidade humana e o corpo místico de Cristo, que nos une em uma santa comunhão mediada por Deus.
Em seguida, Marx aplica esse mesmo esquema ao dinheiro:
“Do mesmo modo, o dinheiro representa originalmente, de acordo com a ideia de dinheiro: 1) a propriedade privada para a propriedade privada; 2) a sociedade para a propriedade privada; 3) a propriedade privada para a sociedade.”
Marx sugere que o dinheiro é semelhante a Cristo, pois ele também é um símbolo multívoco que medeia a maneira como a humanidade se relaciona consigo mesma e com sua propriedade. A tese é o dinheiro como símbolo do valor de nossa propriedade individual. A antítese é o dinheiro como encarnação social da propriedade em geral. A síntese é o ritual da troca mercantil que une a humanidade em uma comunhão material mediada pelo dinheiro.
Mas Marx ainda não terminou. Embora Cristo e o dinheiro sejam símbolos mediadores que unem uma comunidade, eles também são símbolos sociais quase independentes de nós e situados acima de nós. A integração que realizam é incompleta, em parte real, mas em parte ilusória e, portanto, mágica. Marx escreve:
“Mas Cristo é Deus alienado e homem alienado. Deus só tem valor na medida em que representa Cristo, e o homem só tem valor na medida em que representa Cristo. O mesmo ocorre com o dinheiro.”
“O mesmo ocorre com o dinheiro” porque o dinheiro é um símbolo alienado de nossos próprios poderes. E, em uma sociedade governada por seu mediador alienado, o Deus real, tanto o social quanto o pessoal só possuem valor, só representam o Bem, na medida em que representam dinheiro. Utilizamos símbolos sociais para mediar nossas relações. Mas nós próprios nos tornamos meros símbolos do mediador. E, nessas abstrações, perdemos algo de nós mesmos e nos tornamos encantados.

A orgia sacrificial
A Eucaristia Sombria tem sua origem no lucro, no sacrifício de nosso trabalho como tributo ao Deus real. E, assim como a Eucaristia cristã, ela é simultaneamente uma evocação, um sacrifício e uma união.
O dinheiro possui muitas formas materiais diferentes, como metal precioso, moedas ou cédulas, ou registros numéricos em um banco de dados. Mas essas formas materiais são meros veículos para a unidade de conta, o próprio valor econômico, que é um símbolo social. Há muito tempo a economia burguesa abandonou a tentativa de decifrar plenamente esse hieróglifo social e convergiu para um silêncio quase completo sobre a questão. Dizem-nos que a unidade de conta é uma quantidade sem qualidade, um signo de nada, um símbolo que não simboliza. Mas o dinheiro possui um conteúdo esotérico porque, na Eucaristia Sombria, funciona como a hóstia.
Toda empresa capitalista é uma casa de deus, um local de tributo ao capital. Os trabalhadores, em seu ritual diário, sacrificam seu trabalho para produzir coisas úteis para os outros. Mas o verdadeiro objetivo é um fruto esperado, um rendimento divino, um lucro. Portanto, não é qualquer sacrifício que serve. O sacrifício deve ser suficientemente eficiente e útil para que o produto, quando vendido, produza um excedente, uma reluzente soma de dinheiro sob a forma de lucro. O lucro é o momento da epiclese em que uma quantidade maior da substância salvífica é evocada para dentro do mundo.
Todos os rituais individuais fazem parte de um único grande ritual. E todos os capitais individuais são meramente mil faces do mesmo deus. Uma condição necessária para o sucesso do grande ritual é que os trabalhadores realmente se sacrifiquem. Isso não pode ser uma mera troca com deus; deve ser um tributo, uma verdadeira renúncia. Pois o lucro, em seu conjunto, só é possível se os trabalhadores sacrificarem coletivamente ao capital mais de seu tempo do que recebem sob a forma dos bens e serviços que consomem.
O Deus real é uma entidade que manipula, por meio dos fluxos monetários, uma característica particular do mundo a fim de alcançar êxito de controle, que consiste em obter mais lucro. Essa característica é nosso trabalho coletivo, disposto e capaz de sacrificar a si mesmo. O dinheiro é, portanto, ao mesmo tempo um aspecto da presença do Deus real e uma representação de nossas próprias capacidades de trabalho. Na Eucaristia, o pão e o vinho comuns representam Cristo em virtude das ações do Espírito Santo. Na Eucaristia Sombria, o dinheiro representa o trabalho sacrificado em virtude das ações do Deus real. O dinheiro é a união simbólica da humanidade com seu deus.
O lucro monetário, como presença substancial do Deus real, herda o poder divino. O dinheiro é o valor de uso universal, o Bem universal, capaz de realizar nossos desejos. Todos desejamos possuí-lo, tê-lo em nossas mãos, comungar com ele, pois sem ele somos almas perdidas.
Os capitalistas, como organizadores do rito sacrificial, dividem e repartem seu fruto. Essa substância é tão preciosa que nem uma gota pode ser derramada ou perdida. Mesmo a menor fração deve ser contabilizada. Sua distribuição subsequente aos fiéis reunidos é uma operação cuidadosamente controlada, sujeita a regras estritas. As porções inferiores são distribuídas aos trabalhadores, que recebem a dádiva de um salário. Mas a melhor porção é reservada ao capital. Cada Eucaristia Sombria aumenta o poder do Deus real, permitindo-lhe comandar uma parcela maior de nossos produtos, ampliar seu domínio privado mediante a propriedade de mais ativos produtivos, cercar parcelas cada vez maiores do mundo como sua propriedade privada e atrair números crescentes de pessoas para participar do sacrifício. Nosso tributo aumenta o poder do capital e aprofunda nossa servidão a ele. Pois, sob o aparente caos dos preços de mercado e das flutuações da oferta e da demanda, existe uma ordem simples. Todos os preços de todas as coisas no mundo, e todos os salários, são sempre tais que impedem os trabalhadores de poupar quantidades suficientes da substância divina para desfrutar de mais tempo livre. O Deus real impede seus súditos de controlar por quanto tempo trabalham mediante uma decisão coletiva sobre a taxa de crescimento econômico e a duração da jornada de trabalho. O fruto salvífico não pode ser poupado e, portanto, não pode verdadeiramente nos salvar, pois retorna ao próprio capital, aumentando seu poder de comando. A ordem simples e universal subjacente é: sacrifique-se, para sempre.
Consequentemente, o dinheiro em nossos bolsos não representa apenas a escassez necessária. A distribuição da riqueza monetária e a estrutura dos preços também representam nossa servidão desnecessária, nosso ajoelhar coletivo em adoração a um fetiche. O salário monetário é uma recompensa pelo sacrifício que compele a novos sacrifícios. O desencantamento é um mito, ele próprio parte do encantamento sombrio. Pois um deus ainda habita entre nós. E, se desejamos ver seu rosto, basta enfiarmos a mão em nossos próprios bolsos.
Entregamos e oferecemos nada menos que nossa atividade viva. Não há dádiva maior que poderíamos oferecer. Sacrificamos frações de nossa essência viva, de nosso ser único e finito, em cada um de nossos dias de trabalho, até que, por fim, nada nos reste e nossa saúde fracasse. Então estamos completamente esgotados, inteiramente transubstanciados na propriedade privada de nosso Senhor e Mestre Sombrio.

The Resurrection por Pericle Fazzini (Editada)
Triunfo do demiurgo
A Eucaristia cristã visa unir a humanidade no amor fraternal, cuidar dos enfermos, dos necessitados e dos pobres e conduzir-nos à salvação dos males deste mundo. As aspirações utópicas do cristianismo, presentes desde o início e ainda conosco hoje, expressam algumas das aspirações mais profundas e nobres da humanidade.
Cristo escolheu o pão e o vinho para compartilhar porque estes são bens que desejamos: um de subsistência, outro de luxo — uma representação perfeita de nossas aspirações materiais. Cristo não escolheu o dinheiro. Ele observou que:
“Ninguém pode servir a dois senhores. Ou odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro.” [Cristo, Mateus 6:24.]
Cristo compreendeu que o dinheiro já estava comprometido, que ele já hospedava uma hóstia.
O Deus cristão revelou-se impotente diante da ascensão histórica do Deus real. Hoje, um grande capital paira sobre a realização de todo ritual cristão. Todas as denominações administram prudentemente suas carteiras de investimentos em busca de um tipo inteiramente diferente de rendimento divino, bastante satisfeitas em compartilhar os espólios sacrificiais da Eucaristia Sombria. A expulsão dos cambistas do templo por Cristo, as proibições medievais contra a usura, as tentativas de definir e impor preços justos, as iradas negações de que o dinheiro possa ser frutífero, foram em grande medida esquecidas, ecos tênues de uma época anterior ao triunfo do demiurgo. O cristianismo fez sua desconfortável paz com o capital e curvou-se ao seu domínio, muitas vezes colocando-se ombro a ombro com aqueles enlouquecidos pelo apetite insaciável do Deus real, concedendo suas bênçãos à conquista colonial, à escravidão e à guerra imperial, libertando almas para um deus enquanto libertava ouro para outro.
A Eucaristia Sombria, realizada diariamente por bilhões de trabalhadores ao redor do globo, transubstancia nossos sacrifícios no corpo material de um Deus oculto. A Eucaristia Sombria, diferentemente do ritual cristão, não une a humanidade no amor, mas nos divide entre uma elite ungida, a classe exploradora, e um rebanho sacrificial, a classe explorada. Durante o ritual, o Deus real não se sacrifica por amor a nós, tampouco concede desejos sob nosso comando. Trata-se de um novo tipo de magia, nem cristã nem salomônica. Em vez disso, o Deus real consome nossa carne e nosso sangue, esgota nossa atividade viva e, desse modo, apropria-se de nossos poderes. Um encantamento sombrio universal oculta a natureza fundamentalmente idólatra e sacrificial do modo de produção capitalista. Adoramos cegamente um Deus cego. E o verdadeiro significado do dinheiro — como a Presença Real do Deus real em nossas vidas — permanece ocultado.
A sociedade capitalista é, como escreveu Marx, “como o feiticeiro que já não é capaz de controlar os poderes do mundo subterrâneo que invocou com seus encantamentos”. Talvez o maior mito burguês, o auge de sua hybris e a essência de seu poder mágico, seja a crença de que o capitalismo é um modo de produção secular e racional. Mas existe uma profunda continuidade não reconhecida entre o capitalismo e seus precursores encantados. O capitalismo é um modo de produção oculto, controlado por um Deus escondido que manipula seus súditos para que participem de grandes orgias de sacrifício desnecessário e êxtases de acumulação cega. Podemos viver em uma Era da Razão, mas as Razões não são nossas. As grandes trocas sacrificiais entre um povo e seu deus não são superadas pelo capitalismo, mas reproduzidas sob uma forma nova e mais universal. Portanto, continuaremos ainda não modernos, vagando perdidos pelas eras sombrias da humanidade, até que rompamos nosso encantamento sombrio, ousemos contemplar as profundezas do espelho negro e confrontemos o horror que evocamos.
– Ian Wright
Traduzido por Gabriel Antonio Ahmad
ATENÇÃO:
Texto retirado de: Dark Age Marxism (‘Dark Eucharist of the Real God‘ by Ian Wright)


